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Festival do Rio (7)

Luiz Carlos Merten

04 de outubro de 2014 | 10h25

RIO – Gostei demais de Casa Grande, o longa de Fellipe Gamarano Barbosa que passu ontem na competição da Première Brasil. Por mais que tenha gostado de Ausência, de Chico Teixeira, e Obra, de Gregório Graziosi, gostei mais ainda de Casa Grande porque não se assemelha a nada que tenha visto recentemente no cinema brasileiro. Talvez tenha algo a ver com Homens, Mulheres e Filhos, de Jason Reitman, que havia visto à tarde. O filme norte-americano trata de pais e filhos adolescentes, e relacionamentos (e sexo) na era da internet. Há uma mãe superprotetora que invade e-mails e o celular da filha, e cujo autortarismo quase gera uma tragédia. Os pais de Casa Grande também são superprotetores. A família está falida, mas eles mantêm o filho no colégio caro e tentam agir como se tudo estivesse bem. Só que os muros do condomínio não protegem mais a família, não protegem seus integrantes deles mesmos. Poucos filmes discutem tanta coisa de forma tão orgânica. O medo do descenso social, as relações ente patrões e emregados. O protagonista, um garoto que Fellipe Barbosa selecionou no tradicional Colégio São Bento – onde estudou -,  vive o rito de passagem em xeque (choque) com o pai biológico e carente do pai simbólico, o motorsta Severino, que o leva ao forró, onde o riquinho finalmente vai testar sua ‘pegada’. E Fellipe Barbosa, que filma bem, também escreve mito bem – há um churrasco drante  qual explodem os conflitos e se discutem ‘cotas’. Quantos negros existem no São Bento? No Supremo Tribunal Federal?  O pai (Macello Novaes) reage às cotas com indignação e o velho ressentimento das elites – ele nunca precisou de cota (acha). Existem possibilidades interssantes de diálogo de Casa Grande com O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho – que, por sinal, está aqui com a mulher e produtora, Emilie; ele aprimora o roteiro do próximo filme, que pretende rodar no ano que vem. Casa Grande desenha tensões políticas e sociais, mas, no limite, é um filme de personagens. O garoto, os pais, a doméstica, Noêmia, o motorista e a sexy Rita, que precisa sair da casa para que Jean, o protagonita, finalmente… Não creio que exita outro filme recente que consiga dar conta com tanta intensidade da reconfiguração da classe média alta nesse momento de transformação financeira do País. O pai não se relaciona bem com a cúpula do Banco Opportunity, segue pelo jornal a débâcle do império de Eike Batista. A família decai, moral e financeiramente, e os empregados tentam salvar-se, indo à Justiça, mas, no limite, os laços mais fortes de Jean são com eles. Já tinha visto o documentário Laura, do diretor, mas confesso que ele me surpreendeu. Para minha amiga Iafa Britz, que assina a produção, é uma saudável mudança ou pelo menos um signo de diversidade, que vem se somar, criativamente, a seus êxtos de ‘mercado’, Nosso Lar e Minha É Uma Peça – O Filme.

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