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Festival do Rio (7)/Foi massa! (O Assayas)

Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2018 | 10h07

RIO – Reencontrei ontem Olivier Assayas. Conversamos sobre seu belo filme, Vidas Duplas, sobre o avanço tecnológico e a mudança do analógico para o digital, no mundo editorial. De todas as estatísticas que ele cita, les chiffres, nenhuma me impressionou tanto como a consolidação de um segmento particular. O livro lido – não apenas por celebridades, e o editor brinca que vai chamar Juliette Binoche para uma dessas gravações (a própria Juliette, coestrela do filme, diz que tem o telefone da agente, para agilizar o contato). Ou então as vozes são anônimas, mas de gente que se torna muito conhecida, e apreciada, no meio. Lembrei-me de La Lectrice, com Miou-Miou, e conversamos sobre o filme de Michel Deville, que não tem nada a ver com esse mundo da internet, mas é uma boa lembrança de cinéfilos (para ambos). De tudo o que me disse Assayas – o próximo filme, baseado em Fernando Morais, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, será produzido por Rodrigo Teixeira e realizado em Cuba – nada me interessou tanto quanto uma, e talvez duas, observações. A importância dos papéis secundários. Os atores têm de ser muito bons para segurar diálogos corais, entre várias pessoas, como na casa do financista, quando se discute o (falso?) democratismo da internet e a manipulação pelas redes sociais. Assayas, que acompanhou as eleições brasileiras à distância, viu no nosso campo de batalha uma amostra do risco que corre a democracia nesse admirável mundo novo. Admirável? Novo? Voltando à cena citada, ele expõe seu ponto de vista, ou seus pontos de vista, através de diferentes vozes, que filma com mais de uma câmera. Como se filma uma cena dessas? ‘C’est assez compliqué’, é muita complicada, mas toujours amusante, divertida. Quando (o diretor) se dá por satisfeito, o relax é total. Outra observação foi sobre as uniões de longa duração. Guillaume Canet, o editor, e sua mulher, a atriz (dentro do filme) Juliette Binoche, estão juntos há muito tempo, se traem, mas na hora H recuam e mantêm a união estável. A cena do presente (de despedida) é admirável, e mais não digo por causa do spoiler. Essa discussão do casal está no centro do único filme de Assayas que não vi, Os Destinos Sentimentais, baseado no livro de Jacques Chardonne. Como o amor se transforma na relação, ao longo de 30 anos. Poderia ficar horas conversando com Assayas, mas, infelizmente, as assessoras – leia-se a Juliana, ela vai ficar P comigo – ficaram rondando para acabar. Espero que Vidas Duplas tenha sido comprado e estreie logo – as legendas foram eletrônicas, o que aponta para a ausência de distribuição. Achei ‘massa’, como me disse Guilherme Sobota. Será dos meus melhores do ano. O post não serias meu se não citasse Visconti. Ou melhor, Tommaso di Lampedusa, já que a perspectiva é editorial. ‘As coisas precisam mudar para que tudo continue o mesmo.’ Assayas diz – idêntico. A tecnologia pode ser nova, opsd hjumanos continuam enrolados como sempre.