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Festival do Rio (6)/Acorda, Brasil!

Luiz Carlos Merten

07 Outubro 2015 | 09h50

RIO – Vi ontem à tarde o duplo formado pelo curta Mar de Fogo, de Joel Pizzini, e pelo longa Cordilheiras do Mar – A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Netto. Na apresentação de seu filme, Joel disse que estava muito feliz por integrar um programa que privilegiava dois gênios do cinema de invenção do Brasil, Mário Peixoto e Glauber Rocha. Já tinha visto e gostado de Mar de Fogo em Berlim, mas ontem gostei mais ainda. E até gostaria de ter me dado mais uma chance de gostar do mítico Limite, que passou à noite no Centro Cultural da Caixa, mas era o horário de O Maravilhoso Boccaccio e eu estava louco para ver o filme dos irmãos Taviani – que amei. Quem me acompanha sabe que não sou devoto de ‘são’ Mário Peixoto. Mas ontem, mais que nunca, tive a sensação de que o cinema é uma quimera e Limite, um oásis, um sonho de cinema. Rever aquelas imagens e o Mário falando da gênese do filme – a mulher, as algemas, o mar de fogo. E, de repente, Mário entusiasma-se e emociona-se descrevendo uma cena do próprio filme, como se ele não existisse e fosse uma construção ficcional, nunca concretizada, de sua cabeça. O Limite que os outros tanto amam não será, para mim, que não entro no mistério daquelas imagens, uma ilusão? Mal tive tempo de divagar nessas sensações porque logo em seguida explodiu na tela do Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro ‘a fúria do fogo bárbaro’. Glauber, o vulcão. Ele próprio e interpretado por Cláudio Jaborandy, a quem encontrei em frente ao cinema – e devo reencontrar hoje à tarde, na mediação do debate sobre Nise, de Roberto Berliner, no Odeon. Cordilheiras do Mar promete desencadear polêmicas na estreia. Como Betinho, de Victor Lopes, é outro filme urgente, que nos propõe discutir e entender a atualidade política brasileira. Outro olhar sobre nossa frágil democracia, eterna esperança equilibrista. Nos anos 1970, Glauber proclamava que confundiam sua loucura com sua lucidez, ou vice-versa, e celebrava Golbery do Couto e Silva como gênio da raça. O filme é sobre Glauber como pensador político, apoiando os militares ‘progressistas’. Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, todos contam seu encontro em Paris com João Goulart e de como Glauber ouviu do próprio ex-presidente que a abertura viria através de Ernesto Geisel, que representava a retomada do poder pelo grupo militar (‘legalista’, como?) de Castelo Branco. O cinema de Glauber era épico e ele via a si mesmo como um de seus heróis, com Jango e Geisel. O filme começa com um poema do próprio Geneton – ‘Acorda, Glauber! Acorda, Carlos Drummond! Já estou vendo dois mil e 20, dois mil e 30, dois mil relâmpagos riscando as cordilheiras! Só a miragem nos salva, só a miragem é real!’ Ana Maria Magalhães, Aderbal Freire Filho e Paulo César Pereio recitam o poema. Gosto de dizer – meu amigo Dib Carneiro diz que é para causar – que o desfecho de A Queda do Império Romano é a cena mais glauberiana que Glauber não filmou e, se ele não viu o épico de Anthony Mann em Cannes, no ano de Deus e o Diabo, alguém viu e lhe contou, porque é a gênese de Terra em Transe. Vou agora retificar. A abertura operística de Cordilheiras do Mar é super-glauberiana – a mais glauberiana que Glauber não filmou? O mesmo tom épico das falas de Tarcísio Meira em A Idade da Terra. E o filme tem momentos de gênio – o gênio de Glauber que vira o gênio de Geneton, por que não? Glauber acertando suas contas com Pier-Paolo Pasolini, com Jean-Luc Godard. Estou, como se diz, pasmo.