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Festival do Rio (5)/Minhas viagens no planeta América Latina

Luiz Carlos Merten

06 Outubro 2015 | 12h13

RIO – Vi ontem o longa de Marina Person na Première Brasil, Califórnia. É bem-feito, mas mentiria, se dissesse que gostei. Não sei até que ponto é autobiográfico, se a jovem Marina queria ir para a Califórnia e tinha um tio aidético – a morte, como o desejo feminino, tem rondado o Festival do Rio 2015. Mas a atriz tem o tipo físico da diretora, parece-se tanto com ela que o filme termina reverberando num espelho. Garotas, o rito de passagem, a perda da virgindade. Discute-se muito o ser ‘gay’. Achei simpático, mas meio ingênuo e, honestamente, não consegui me interessar muito. Na saída, encontrei Paula Ferraz, que zoou comigo. Disse que, ao rever o filme na Mostra, vou gostar mais. Meu amigo Dib Carneiro, que também estava na sessão, gostou demais da trilha. Hoje, no café da manhã, no hotel, Elaine Guerini me disse a mesma coisa. Aquela trilha embalou a juventude dela, como a do Dib, nos anos 1980. Eu tinha dito ao Dib que não conhecia nada daquelas músicas. Ele me perguntou onde andava, na época? Em que planeta? Provavelmente no planeta América Latina, viajando com a Dóris, minha ex. Nunca fui muito de rock, confesso. Os Beatles, sim. Rolling Stones, definitivamente, não. Passei os anos 1960 e 70 curtindo Mercedes Sosa, Atahualpa Yupanqui, Quillapayun (a genial Cantata de Santa Maria Iquique), Chalchaleros, Tabare Etcheverría, Alfredo Zitarrosa. Esse último, eu venerava. ‘Niña/no me habias dicho que estabas enamorada…’ Poderia ser a trilha do filme de Marina, mas aí ela, sua personagem, não ia querer ir para a Califórnia. O que me leva a Argentina, de Carlos Saura. O filme viaja pelos ritmos do país vizinho. Música de raiz, folclore. Zamba, zamba alegre, chacarera, chacarita. Tem homenagens a Mercedes e Don Atahualpa. Tive o privilégio de ver e ouvir os dois, ao vivo. Sei de críticos que se interrogam se esses filmes com música do Saura são ‘cinema’. Eu entendo, perfeitamente, mas gosto. Emocionei-me muito vendo Argentina. Viajei nas minhas lembranças, como Marina Person, provavelmente, viaja nas dela, em seu filme. Só senti falta do tango em Argentina. Tudo bem. Não é folclore e Saura já fez um filme sobre o tango. Mas nada define melhor – acho – a alma e a identidade argentinas. Saura filmou num estúdio da Boca, em Buenos Aires. Que lugar melhor para voltar à passionalidade do tango?