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Festival do Rio (4)

Luiz Carlos Merten

01 de outubro de 2014 | 10h01

RIO – Vi ontem o Trash de Stephen Daldry, com roteiro de Richard Curtis, e me emocionei com o trio de garotos do lixão que enfrenta os poderosos numa fantasia tratada realisticamente, o que não deixa de ser uma contradição em termos. Trash também não deixa de ser mais uma versão ficcional de À Queima-Roupa, o forte documentário de Theresa Jeroussoun que discute corrupção e violência na polícia do Rio. Existem imagens no filme da Theresa – policiais disparando a queima-roupa sobre ‘bandidos’ – que me fizeram chorar. É verdade que, na sexta, quando vi o filme da Theresa para fazer a mediação no Cine-Encontro, estava bem pior, bem mais debilitado que hoje. Foi até por isso, por estar tão mal, que caí feito patinho na armadilha de Daniel Aragão, mas deixa pra lá. Não vou mais ficar molestando o leitor com minhas histórias de diarreia. Sobre a violência policial, a grande questão é essa. Bandido bom é bandido preso, mas há uma classe média que não se importa que bandidos sejam mortos sob a guarda da polícia. Acham isso natural, e também que tantos trabalhadores sejam mortos impunemente. É o horror, o horror. O festival esquenta. Vi ontem O Fim de Uma Era, de Bruno Safadi e Ricardo Pretti, e à tarde faço a mediação do debate sobre o filme no Cine-Encontro.  Bruno prossegue o diálogo dele com a Bel-Air, a mítica produtora de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane. E se o cinema for mulher? Meus amigos gays vão me matar, mas era a tese de Walter Hugo Khouri, que sempre se apoiava na mítica associação de Joseph Von Sternberg e Marlene. É preciso dizer qual Marlene? A Dietrich. O Fim de Uma Era conta histórias de cinema, é sobre cinema. Duas mulheres, Leandra Leal e Mariana Ximenes. Múltiplas vozes. Leandra talvez seja a melhor atriz de sua geração no cinema. Só no Rio, já ganhou dois Redentores, mais a recente homenagem do Festival Latinoamericano de São Paulo. Leandra tem necessidade de ‘ser’. Vai fundo nas personagens. Mariana só precisa ‘estar’. Poderia tentar fazer um tratado semiológico sobre o rosto de esfinge de Mariana Ximenes, um rosto à Greta Garbo, no qual nós, espectadores, podemos ler não importa o quê. Ficava louco quando ela entrava em cena em O Fim de Uma Era, emulando as lendárias estrelas de Hollywood no passado. Ricardo e Bruno põem a cara no próprio filme. Dada a notória admiração de Sganzerla por It’s all True, não surpreendeu, a mim pelo menos, que Bruno Safadi faça… Orson Welles. Muito interessante. Ontem à tarde tive médico, passei no jornal para redigir meu texto de hoje no Caderno 2 e nesse vaivém perdi o filme de Eryk Rocha sobre um time do futebol de várzea do Rio, que vou tentar rever à tarde, no pavilhão. Meu dia hoje vai ser corrido. Idas e voltas ao pavilhão, à sucursal e, à noite, o Trinta, de Paulo Machline, no Teatro Municipal. Daqui a pouco ocorre a coletiva de Sérgio Sá Leitão, diretor da RioFilme e secretário de Cultura do Rio, cuja gestão tem estado no centro das críticas do movimento Rio, Mais Cinema, Menos Cenário. Já me pediram para vestir a camiseta do movimento, mas, como jornalista, não creio que seja o caso. Posso vestir no jornal, no blog. Mais verba para cinema de investigação, menos para o de mercado. O assunto é polêmico, mas Bruno (Safadi) tem razão. O investimento em cultura não deve ser medido só por investimento financeiro. A categoria está clamando por investimentos na Cinemateca do MAM e no restauro do Odeon. Por mais que seja interessante a reunião das seções da Première Brasil nas muitas salas do Lagoon, o Odeon era um símbolo, e não apenas de glamour.

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