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Festival do Rio (4)/Clint prossegue sua crítica às instituições

Luiz Carlos Merten

16 de dezembro de 2019 | 00h43

RIO- Estou começando o post ainda no domingo, mas daqui a pouco será meia-noite e quando o concluir já estaremos na segunda. Foi um dia estranho. Fiz uma entrevista de que gostei muito, com a diretora – Sandrine Dumas – de Pequenas Mentiras Francesas. Almocei com Emilia Silveira num restaurante tradicional, o Aurora, em Botafogo – camarão gratinado, com um bom vinho (Sauvignon Blanc) -, mas aí morreu Anna Karina e mal eu tinha fechado meu material do dia, na sucursal do Estado, quando surgiu a notícia de outra morte. Nelson Hoineff. Havia entrevistado Anna para uma série antiga do Caderno 2, Encontros Notáveis. Lembro-me, na época, de haver vindo ao Rio para entrevistá-la, no Copacabana Palace. Revisitamos sua carreira, os anos nouvelle vague. Jean-Luc Godard, o escândalo A Religiosa, os demais grandes diretores com quem trabalhou. Luchino Visconti, Rainer Werner Fassbinder, George Cukor. E o Nelson. Seus documentários sobre Chacrinha e Paulo Francis, Alô Alô Teresinha e Caro Francis, me pareceram tentativas muito interessantes para tentar apreender o Brasil popular e o erudito. As mortes temperaram minha euforia, nublaram meu dia, que estava ensolarado. Agora à noite fui ver o Clint, O Caso Richard Jewell. Como no herói do Rio Hudson, Richard é endeusado como o segurança que descobriu a bomba, impedindo que explodisse num estádio de Atlanta, durante a Olimpíada, e no momento seguinte de herói vira suspeito, com o FBI invadindo sua privacidade, destruindo sua vida. A jornalista é uma vaca, o policial é um canalha. Ela recua, o agente insiste na acusação, mesmo sem provas. Sam Rockwell interpreta o advogado de defesa. Sua secretária, futura mulher, tem uma grande frase – de onde eu venho, se o governo acusa uma pessoa é a prova de que é inocente. Não, não é o Brasil. A narrativa passa-se nos anos 1980 e o nome dela é Nadya. Vem muito provavelmente da Cortina de Ferro, nos estertores da Guerra Fria. Clint e a Justiça, as instituições. A história é real, talvez não seja um grande filme, mas é muito bom. A grandeza dos derrotados, John Ford. Cada vez me convenço mais da importância do legado de Ford. Nesse mundo sem ética em que vivemos, é como se o lado escuro da Força tivesse tomado o poder, jogando a resistência para escanteio. Vale para o Brasil, a ‘América’. O Brasil foi o vilão da conferência do clima na Espanha, mas hoje, ouvindo o ministro Ricardo Salles, do Meio-Ambiente, falar, na TV, pensei estar ouvindo Dom Quixote. Ele, sozinho, contra as potências, como se a contribuição brasileira ao aquecimento global não viesse das queimadas, que, até onde sei e informam institutos independentes, aumentaram muito na Amazônia, de dois anos para cá. O ministro falava e ninguém o interrompia. Peraí. São tempos difíceis – muito.

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