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Festival do Rio (3)/O mundo digitaliza-se, as pessoas seguem as mesmas e essa é a tragédia

Luiz Carlos Merten

05 Novembro 2018 | 09h28

RIO – Estou muito curioso pelo Mike Leigh, Peterloo, mas, sem querer colocar o carro à frente dos bois – o que faço, às vezes -, creio já haver visto meus dois melhores filmes desse festival, e foram ambos ontem. Pela manhã, na sessão de imprensa, Vidas Duplas, o Olivier Assayas que havia deixado de ver na Mostra – como ele vem ao Rio, já deve até estar aqui, deixei para ver o filme no festival porque estaria mais fresco na minha cabeça. O outro, à noite, no Odeon, Se a Rua Beale Falasse, o novo Barry Jenkins. Já temos Oscar, eu tenho, fuck the Academy. Vidas Duplas é sobre a passagem do analógico para o digital no mercado editorial, que Assayas usa para dar seu testemunho sobre o estado do mundo. Visconti – ‘As coisas precisam mudar para que tudo fique no mesmo.’ Por se tratar de um filme sobre livros, o crédito é de Tommaso di Lampedusa, o escritor que coloca a frase na boca de Tancredi, sobrinho do príncipe Salinas, em O Leopardo. O livro acaba de sair numa belíssima edição no Brasil. Teria de ter o volume à mão, ou fazer uma pesquisa, para dar conta da editora. A tecnologia muda, o mundo continua o mesmo, porque as pessoas não mudam. Traições mis, manipulasções, sexo, poder e dinheiro. Não sei o que me encanta mais em Assayas – se o diálogo taco no taco para discutir as questões contemporâneas, ou se a fluidez que confere grande elegância à sua mise-en-scène. A câmera de Assayas! Não vou falar nada, agora, sobre as relações, porque não tinha a mínima ideia do filme que ia ver – exceto que era sobre um editor e sua mulher – e as descobertas foram decisivas para o prazer que tive assistindo a Vidas Duplas. Estou nos cascos para esse (re)encontro com Assayas, a quem já entrevistei outras vezes, por Demonlover, Horas de Verão (essa foi por telefone), Carlos, Acima das Nuvens, etc. Que venha mardi, a terça-feira.