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Festival do Rio (3)/Com o abraço de todos os deuses, M8

Luiz Carlos Merten

15 de dezembro de 2019 | 09h39

RIO – Estamos num momento tão visceral da história do Brasil, polarizado pelo discurso do ódio da camarilha que tomou o poder navegando nas águas do antipetismo e das fake news, que um filme como o de Jeferson De, na Première Brasil adquire um significado que ultrapassa suas qualidades estéticas. Antes de falar sobre M8 – Quando a Morte Socorre a Vida, é bom falar de Fé e Fúria, o Marcos Pimentel que também concorre na Première, na categoria documentário. Lembram-se de Fé, Santo Forte, etc? Estamos numa outra fase da discussão sobre religião, favela e subúrbio. A novidade são os evangélicos do tráfico, que recitam os Salmos enquanto pegam em armas para fazer valer sua atividade criminosa e usam da força para pregar sua intolerância religiosa, principalmente contra as religiões afros. Eu, às vezes, me recrimino. Me acho tão bom crítico, sorry de admitir, e não enxerguei coisas que estavam ocorrendo em minha vida e no País. Já admirei Roberto Alvim e a mulher, antes que virassem… Vou poupá-los de meus adjetivos, e também me emocionei com aquele documentário de João Moreira Salles, mostrando como a religião evangélica estava levando cidadania aos excluídos sociais. Isso foi antes das TVs, dos templos gigantescos, dos conluios com o poder. Chegamos ao que chegamos. O Jeferson. Juan Paiva, o homem mais bonito do Brasil – não pude deixar de pensar num comentário do Inspetor Japp, criação de Agatha Christie: “Homens não deveriam ser bonitos assim”, brincadeirinha, Juan – faz o filho da assistente de enfermagem que ingressa na universidade para estudar medicina. Nas aulas de anatomia, e Morto não Fala já havia dado conta disso, só existem cadáveres de negros para ser dissecados. Maurício – é seu nome – fica obcecado com o cadáver com que lhe toca trabalhar, negro como ele, e isso ocorre quando diariamente, para ir à faculdade, passa pelo movimento das mães que, como as da Praça de Mayo, buscam seus filhos desaparecidos. Jovens, negros e pobres. Na apresentação do filme, Jeferson – elegantérrimo num blazer de veludo azul – agradeceu a suas damas, Zezé Motta e Dona Léa Garcia, ambas na tela, e disse que era um prazer finalmente trabalhar com a grande Mariana Nunes. Ela tem uma cena que já nasceu antológica. Discute com o filho na cozinha do apartamento. Ele está sob pressão, grita que a mãe não sabe o que ele está passando na faculdade, impede-a de falar. Ela retruca – mais alto – que é uma mulher preta e está com a palavra, tem o direito de falar. Acho que é o momento mais importante do cinema brasileiro atual. Tudo o que Jeferson De fez, até agora, foi para chegar aqui. A plateia do Odeon prorrompeu em aplausos, eu, mané como sempre, chorei copiosamente. Temos esperança. Os excluídos estão acordando, dando-se conta. Bacurau, Parasita, Coringa, Les Misérables. Ainda na abertura, Jeferson disse que, para toda a equipe, predominantemente negra, havia sido muito difícil rodar a cena final, e eu fiquei na maior angústia. Maurício tem tantos pesadelos de que está naquela banheira de formol, para ser dissecado, que comecei a temer. É um filme fantástico, mas o Jeferson não vai fazer isso comigo, com a raça, transformá-lo nesse horror. Quando veio o final, entendi como e por quê havia sido tão difícil. Questionei um tantinho a verossimilhança, mas é tão belo. A arte nos redime. A produtora Iafa Britz, amiga querida, disse no palco que M8 nasceu com as bençãos de todos os deuses judaicos e todos os orixás. Sincretismo, tolerância, pacificação – mas isso não significa manter os excluídos onde estão, fora do banquete. O Brasil não pode permanecer nesse patamar de desigualdade, onde jovens negros são suspeitos por existirem – a cena da polícia é exemplar. Quando o abracei, antes da sessão, Jeferson me disse – mais um filme. Não – muito mais que isso. Seu grande filme.

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