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Festival do Rio (20)/E o Redentor foi para… ‘Boi Neon’!

Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2015 | 01h23

RIO – Estou voltando da premiação do Festival do Rio. Não posso dizer que fiquei 100% satisfeito, mas poderia ter sido pior. Os primeiros prêmios da competição da Première Brasil me pareceram desastrosos e eu já estava a ponto de cortar os pulsos. Mas depois a luz se fez no fim do túnel e até certos prêmios – muitos – com os quais não concordei passaram pelo menos a fazer sentido. Confesso que gostaria que Ana Paula Arósio e Nelson Xavier tivessem sido melhor atriz e melhor coadjuvante pelo Macbeth de Vinícius Coimbra, A Floresta Que Se Move. Até me sentia culpado por isso, porque gostaria que os quatro prêmios de interpretação fossem para Aspirantes. O longa de Ives Rozenfeld ganhou melhor diretor (dividido), melhor ator, Ariclenes Barroso – e desculpem-me, mas não havia outro, em todo o festival – e melhor coadjuvante feminina, outro prêmio dividido, para Júlia Bernat. Não sei quem estabelece essas regras, mas, para mim, Júlia concorreria a melhor atriz (daí minha culpa, por minha adesão a Ana Paula) e Karina Teles seria, naturalmente, indicada para melhor coadjuvante. O júri esqueceu-se de Sérgio Malheiros, e foi injusto, porque um dos momentos que levo comigo desse festival é o diálogo dele com Ariclenes no alto do morro, quando o garoto se abre com o amigo e conta para ele que a namorada está grávida. Boi Neon, de Gabriel Mascaro, do qual gosto muito, venceu melhor filme, roteiro, atriz coadjuvante (a menina Alyne Santana, dividida com Júlia Bernat) e melhor fotografia. Nenhum prêmio me indignou mais, e não porque a fotografia de Boi Neon não seja boa. Ocorre que Pablo Bayão, que fotografou Quase Memória, substituindo Walter Carvalho, e A Floresta, fez um trabalho excepcional nos dois filmes. O júri, que dividiu tanto, poderia ter somado neste caso. O próprio Walter Carvalho deve reconhecer a excelência do Sr. Dira Paes. Ruy Guerra até brincou – disse que o prêmio especial do júri para ele, o único para Quase Memória, devia ter sido obra do empenho de Walter. Gostaria que o presidente tivesse tido a mesma veemência para convencer o júri a votar no Pablo. Nem Quase Memórias nem A Floresta são filmes ‘naturalistas’. Há em ambos uma teatralidade, acaso um artificialismo, intencional e assumido, que gostaria que tivesse sido entendido e destacado. Só achei bizarro que o júri dividisse o prêmio de direção – para Mate-Me, por Favor, de Anita Rocha da Silveira, que não era um dos meus favoritos, assumo, e Aspirantes – e escolhesse um terceiro filme (Boi Neon) como melhor. Entendi menos ainda o prêmio de montagem para Campo Grande, de Sandra Kogut, mas, enfim, júris costumam ser distributivistas, e aí termina valendo tudo. Cinema é montagem, ou roteiro? eu ainda sou do tempo que era mise-en-scène, direção, mas o júri do Rio crê no segundo, daí os prêmios de filme, roteiro e fotografia para Boi Neon. Os prêmios do público foram para Nise, de Roberto Berliner, na categoria ficção, e para Betinho – A Esperança Equilibrista, de Victor Lopes, documentário. Quem me acompanha sabe que não tenho muita paciência com essa instituição – a crítica – e que, muitas vezes, acho os coleguinhas, além de preconceituosos, medíocres. Mas me baixa o sentimento corporativo quando vejo diretores agradecerem, o prêmio do público e dizerem que é o mais importante. Mentira – cortariam o saco pelo prêmio da crítica, até porque prêmio do público em festival raramente, para não dizer nunca, é confirmado na bilheteria. Espero até que Nise venha a ser uma exceção, e com Glória Pires até acredito que possa ocorrer. O júri outorgou uma menção para Geneton Moraes Neto, por seu documentário ‘glauberiano’- Cordilheiras no Mar, a Fúria do Fogo Bárbaro. Mas por mais que tenha ficado impactado por Cordilheiras, os prêmios de documentário foram irrepreensíveis. O público votou em Betinho e o júri oficial preferiu O Olmo e a Gaivota. Confesso que não havia gostado de Helena, o documentário precedente de Petra Costa, mas O Olmo é outra coisa, e muito melhor. O filme passa na Mostra e estreia em 5 de novembro, com A Floresta Que Se Move. Vamos ter tempo de falar de ambos, mas é bom já irem se preparando. E, sim, Ana Paula Arósio é minha capa no Caderno 2 de amanhã. Entrevistei Ana Paula no domingo, no Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, assistido pelo marido dela, o atleta de hipismo Fernando Plombon. Existem mulheres cuja beleza me paralisa. Minto – nunca deixei de entrevistá-las por isso. Michelle Pfeiffer, Angelina Jolie, Ana Paula. Fiz a entrevista e até ouso dizer que está boa. Mas, diante de tanta beleza, a vontade era de ficar pasmo, só admirando.