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Festival do Rio (19)/E ‘O Clã’, hein?

Luiz Carlos Merten

13 Outubro 2015 | 10h40

RIO – O Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro estava ontem lotado para a sessão de encerramento do festival. A diretora artística Hilda Santiago subiu ao palco para agradecer a parceria com a Argentina e apresentar o ator Peter Lanzani. Pablo Trapero está com a agenda cheia e não pôde vir. Enviou seu ator. Lanzani faz um dos filhos. Entrevistei-o agora pela manhã. O Clã inspira-se numa história real ocorrida durante o retorno do país vizinho à democracia. Há um subtexto político no filme – resquícios da brutal ditadura militar. O pai, Guillermo Francella, integrou alguma célula de repressão do regime. Reporta-se ao ‘comodoro’. Com disciplina militar, ele comanda operações de sequestro de pessoas ricas, a quem culpa pelo descalabro do país. Pede o dinheiro do sequestro em nome de uma suposta organização guerrilheira – e mata suas vítimas. Lanzani é o filho ‘atleta’. Está na mídia. Chega uma hora em que quer cair fora. O pai o humilha e aterroriza com seu discurso totalitário. O Clã é muitas coisas ao mesmo tempo. Thriller político, drama familiar, estudo psicológico (não conclusivo) sobre mentes criminosas, denúncia da alienação (a mulher e as filhas fingem que não sabem o que ocorre na casa). O Clã bateu o público de Relatos Selvagens ao estrear na Argentina. é outra parceria do cinema argentino com a El Deseo, dos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín, que também coproduziram Relatos. Saí do cinema bem desconcertado. fui jantar no Lamas com Thiago Stivaletti. Encontrei um monte de gente amiga (Eduardo Valente, Lívia Deodato, Rodrigo Fonseca etc), o que amenizou meu mal-estar. Ainda estou digerindo O Clã e tentando entender a insatisfação (ética?) que o filme me produz. Mas compreendo que, para os argentinos, essa representação promíscua da família deve ser um choque pelo que revela sobre a própria identidade nacional.