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Festival do Rio (18)/Tempos difíceis

Luiz Carlos Merten

15 Novembro 2018 | 07h40

Esse vai ser meu último post sobre o festival de 2018, espero nele estar no de 2019. Tempos difíceis. Coloquei o título no post e imediatamente me veio que João Botelho o utilizou no filme que adaptou de Charles Dickens, Hard Times, for These Times. No encerramento – Dira Paes e Du Moscovis foram os apresentadores -, Walkiria Barbosa e Ilda Santiago subiram ao palco do Odeon para suas considerações finais. Apresentam sempre números, em geral sobre o festival do ano, mas dessa vez foram números mais genéricos sobre a atividade cinematográfica no Brasil, sobre a Lei Rouanet, que está na mira do novo governo. Sem a Lei Rouanet, o festival talvez não tivesse se viabilizado. Podem ter havido irregularidades pontuais, não duvido – não estou falando do Festival do Rio, claro -, mas a Lei Rouanet é essencial para a atividade artística e, segundo dados da Walkiria, para cada real investido, voltam quase quatro (é isso?) em forma de pagamentos e até, ou principalmente, impostos para o governo. É uma atividade que movimenta bilhões e dá empregos, diretos e indiretos. Bolsonaro e sua equipe falam ou reduzir ou eliminar o sistema S. O Sesc não poderia mais investir em cultura, somente em cursos técnicos de capacitação profissional. Alguém consegue imaginar a vida cultural de São Paulo, do Brasil, sem o Sesc e o Danilo Santos de Miranda? Entrevistei Marieta Severo pelo belo filme de André Ristum, Lua de Sangue, perdão, A Voz do Silêncio, e ela, que já foi mulher de Chico Buarque – aviltado pelo bolsonarismo por sua lealdade a Lula -, lamentou que artistas estejam sendo criminalizados. Por que? Porque são críticos, e não é isso que os novos (novos?) senhores querem. Vi tantas coisas boas no Festival do Rio de 2018, tive encontros tão ricos. Reencontrei ontem, no escritório da Paula Ferraz, Douglas Duarte, que lança na semana que vem Excelentíssimos, sobre o Congresso e a classe política que votou o impeachment de Dilma Roussef. Vi o filme no Rio. É de chorar. Durante a sessão que precedeu o debate, no Odeon, muita gente ria, mas era um riso nervoso. Todo aquele discurso patrioteiro – Stanley Kubrick adorava citar Samuel Johnson, o Dr. Johnson, ensaísta e moralista inglês que dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas -, mas na verdade estava todo mundo lá para enterrar o petismo e defender seus interesses. Não sou pessimista por natureza. Mesmo nos momentos mais difíceis que enfrentei este ano, nunca deixei de acreditar que tudo aquilo ia passar. Mas que os tempos andam turvos e até assustadores, andam.