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Festival do Rio (16)/Que noite!

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2015 | 11h20

RIO – Depois de Não É Um Filme Caseiro, corri para o Lagoon para ver o duplo da Première Brasil. Amo o Matraga de Vinícius Coimbra, mas pelo que estou sabendo é um sentimento meio isolado entre a crítica. Marco Aurélio Marcondes estava no cinema e me falou da generosidade dos filhos de Roberto Santos, o diretor do clássico dos anos 1960. Eles amaram, pelo visto, como eu, o filme de Vinícius e, segundo o Marco Aurélio, escreveram textos lindos sobre ele. Vou tentar descobrir (e ler). Sentei-me ao lado de Dira Paes, durante o Macbeth de Vinícius Coimbra, A Floresta Que Se Move. Dira está gravidíssima. Disse que o bebê pode nascer a qualquer momento. O pai é Pablo Baião, fotógrafo da Floresta e de Quase Memória, o filme de Ruy Guerra, que passou a seguir. Vinícius disse que fez Matraga por altrísmo, porque ama o conto de Guimarães Rosa e o filme de Roberto Santos, que gostaria que mais brasileiros conhecessem (os dois). O Shakespeare ele fez por egoísmo, para o próprio prazer,justamente para expressar sua paixão pelo bardo. Ruy Guerra, na apresentação de Quase Memória, também se definiu como egoísta. Filma porque ama o cinema e não pode viver sem ele. Sou fascinado por A Floresta Que Se Move. E achei muito corajoso que um diretor carioca defendesse o drama, dizendo que o cinema brasileiro não pode ser feito só de comédias – no reduto delas -, por mais que sustentem nossa indústria (?). A Floresta talvez seja o filme brasileiro mais ‘clean’ do ano, dos últimos anos. Num certo sentido, me lembrou Lodge Kerrigan, um autor independente do qual ninguém mais fala nem eu. Kerrigan fez um filme chamado Claire Dolan. Com exceção da chuva de sangue, tudo é clean no Macbeth de Vinícius. O desenho do som, os ambientes que criam uma espécie de intemporalidade, o figurino do elenco. Já que o filme se passa no meio financeiro, num meio ‘rico’, o figurino é decisivo. A cor, o corte. Nunca vi atores brasileiros usando ternos tão bem cortados. E o jeito como caminham! Gabriel Braga Nunes tem a elegância de um espadachim, Ana Paula Arósio o porte de uma princesa -, como, aliás, a define Nelson Xavier. Mas a plateia, pelo visto, não entrou no clima, como eu. Uma amiga veio me falar da cena ‘ketchup’, quando Vinícius nos faz compartilhar a visão de Gabriel/Macbeth do homem que ele fez degolar. Calei-me para não brigar. Ketchup! Outro não gostou da intriga policial, que acha que banaliza o verbo de Shakespeare. Não sinto o filme assim, ‘banalizado’. E veio o Ruy. Achei Quase Memória muito bonito, muito bem dirigido, mas não creio que tenha ‘amado’. Experimentei a ternura que Ruy disse que gostaria que nós, o público, sentíssemos pelo pai da ficção de Carlos Heitor Cony. Eu próprio sou pai e tocou-me muito ver o Ruy naquele palco, cercado pelas filhas, Janaína (produtora) e Dandara (assistente de direção). Achei muito interessantes a artificialidade e teatralidade das cenas que se desenrolam numa terra de ninguém, nessa ‘quase’ memória. O pacote – enviado pelo pai morto? – é a madeleine para que os protagonistas, o mesmo homem em diferentes fases da vida, viajem no tempo. Muito bonito, inteligente, e Rodrigo Fonseca me havia falado no clima meio Capitão Tornado, de Ettore Scola. Era o que esperava, buscava. o ‘meu’ Scola. Mas Ruy tem a mão pesada, e não é de hoje. Para gostar mais do filme dele, teria de ser mais ‘leve’. E o Ruy falou de suas ‘obsessões’ no palco. Todos aqueles relâmpagos e trovões e a câmera na cara dos atores me lembraram demais Veneno da Madrugada, que é o filme dele de que menos gosto. Continuo torcendo por Aspirantes na competição da Première Brasil, mas creio que o júri de Walter Carvalho não vai ignorar o Ruy – como poderia? Espero que não ignore o Vinícius Coimbra, também. Entramos pela madrugada, Dib Carneiro e eu, no Lamas, o restaurante. Chegaram Walter Carvalho e Rodrigo Fonseca. E Tetê Mattos, diretora do curta Fantasias de Papel. O bom do Festival do Rio é que é 24 horas. A gente o vive a toda hora, em toda parte.