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Festival do Rio (15)/Meu adeus a Chantal Akerman

Luiz Carlos Merten

11 Outubro 2015 | 10h32

RIO – Provavelmente vou deixa-los perplexos, mas eu também estou perplexo. Meu amigo Dib Carneiro vive dizendo que habito uma galáxia própria. Nela não chegou a notícia de que Chantal Akerman suicidou-se dia 5. Foi na segunda-feira passada, em pleno festival, eu devia estar correndo para cima e para baixo. imagino que não tenham me encontrado, no jornal, e que Ubiratan Brasil, meu editor, e Eliana Souza, a pauteira, tenham pedido a Luiz Zanin Oricchio que a enterrasse. Ontem, durante a feijoada, Thiago Stivaletti falou da morte de Chantal quando lhe disse que estava indo ver o filme dela, Não É Um Filme Caseiro. Havia me programado para assistir a Francofonia e Rabin, mas muidei o programa antes mesmo de saber do que, para mim, era uma novidade sobre Madame Akerman. (Jeanne Moreau me disse certa vez que uma atriz francesa é sempre mademoiselle; uma diretora, toujours madame.) Foi uma das sessões mais concorridas do Festival do Rio. A sala – Net Botafogo – lotou. Há um culto a Chantal, e ouso dizer que seja mais coisa de carioca que de paulista. A jovem crítica, seja lá o que isso significa, a tem na conta de gênia. Nunca fui devota da autora. Tenho uma admiração fria e distante por seu cinema, que mistura o minimalismo de Robert Bresson com o experimentalismo de Jean-Luc Godard. Conversei com ela por telefone, acho que foi para a retrospectiva de sua obra. A conversa não andava, e aí me desculpei, disse que seria uma pena e a matéria não sairia boa, se a gente não se entendesse. Na verdade, estava incomodado com a frieza dela, mas era a frieza que eu próprio experimentava por seu trabalho. De alguma forma, ela se descontraiu, nos descontraímos. Gostar, gostar mesmo, acho que só experimento esse sentimento por um filme dela, Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de 1975, quando Chantal ainda era bem jovem – nasceu em 1960. O título do filme refere-se a uma dona de casa belga e a seu endereço. Delphine Seyrig, que faz o papel, cuida da casa e do filho, e se prostitui para pagar as contas. O filme cria uma espécie de rotina para expressar a degradação da personagem, mas não é aquela coisa da Naná de Godard em Viver a Vida, de 1962, ou 63. Godard conta a história da galinha/poule. Tem o interior, o exterior. Naná perde os dois, é a sua tragédia ao se coisificar, mas Godard, que divide o filme em quadros, assume sua distância, não busca nos apanhar pela ’emoção’. Ele até critica a alienação de Naná, que chora no cinema vendo A Paixão de Joana D’Arc, de Carl Theodor Dreyer, e parece não ter consciência de sua situação. O que mais me impressionou em Não É Um Filme Caseiro foi a distância da câmera. Chantal filma conversas com sua mãe, um judia que sobreviveu ao Holocausto. Lembra o rei da Bélgica, que era nazista. Conta como em Bruxelas, na época da guerra, as placas nas casas diziam- ‘Não alugamos para cães nem judeus.’ E elas falam – de tudo. um noivo exercício de repetição? Família, gênero, solidão. A câmera permanece longos minutos numa árvore batida pelo filme. O som vira personagem. Chantal filma paisagens áridas. E, dentro da casa, a câmera permanece a uma conveniente distância – sempre. Sabendo que poderia ser um filme testamental, e de uma mulher que se matou, tentei me abrir mais para o que estava vendo. Chantal e a mãe saem, de cena. A casa fica deserta, o que talvez já sinalizasse para o abandono que a levou à morte. Não é que tenha gostado mais de que de outros filmes de Chantal, mas fiquei bem perturbado.