As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Festival do Rio (14)/Excelentíssimos

Luiz Carlos Merten

11 Novembro 2018 | 10h29

RIO – Fiz, ontem, minha segunda mediação, e foi o debate sobre Excelêntíssimos, o forte documentário de Douglas Duarte sobre os bastidores do impeachment de Dilma Roussef. Douglas conseguiu autorização do Congresso para filmar não apenas o plenário, mas os encontros de gabinetes, a portas fechadas, que levaram à derrubada da presidenta. O filme dele forma um díptico importantíssimo com outro documentário, O Processo, de Maria Augusta Ramos. Ela acompanhou o impeachment grudada na presidenta e tendo acesso aos gabinetes do PT. Douglas filma as bancadas da bala, do boi, os evangélicos. Flagra o surgimento do mito – ‘Invade lá a minha casa pra ver. Mas vai armado, porque pra defender minha família eu faço tudo.’ Taí, era o discurso que a classe média, todos os coxinhas do Brasil, queriam ouvir. Solidariedade zero. Foi um debate bacana e, depois, fiquei feliz quando (re)encontrei o Douglas na Cinelândia e ele me disse que havia sido a melhor mediação que teve até agora debatendo o Excelentíssimos. O filme entra dia 22. Tarde demais? Tem um momento fortíssimo. Discursa o parlamentar da Bahia, justificando o sim. A baboseira pela família, a honestidade, etc. E Douglas, que filmava o plenário, contrapõe na montagem a rua, com a câmera de Camila Freitas (espero estar acertando o nome). Uma ‘popular baiana. E tudo o que o deputado diz, ela contrapõe. ‘Esse eu conheço, é da corja de ACM, ladrão, canalha, fdp.’ O cinema é uma coisa maravilhosa. Excelentíssimos, tenho a tentação de escrever ‘encelências’, é longo, mais de 2h30, o debate tomou mais uma hora. Almocei correndo e era o segundo sábado do mês. Estava ali do lado, fui à Alcindo Guanabara porque era dia de ‘O Samba Brilha’, a roda de samba na qual me amarro. Doze anos de resistência de sambistas de raiz. Não resisti e caí no samba. Fiquei pensando – será? Será que teria condições de encarar o asfalto, uma passarela do samba, com esse joelho que ainda dói? Estou escrevendo no domingo pela manhã. O festival termina à noite. Volto amanhã para São Paulo. Volto à físio, à acupuntura, ao Carlos, ao Dr. Marcos. No sábado à noite, depois do samba, o crítico de cinema voltou ao teatro. Corri ao Teatro Clara Nunes para ver, agora da plateia, o Dogville. Encontrei um monte de gente de cinema. Daniel Schenker, Carlos Heli de Almeida, Rodrigo Fonseca – e Murilo Benício, que vai estrear, enfim, seu Nelson Rodrigues, O Beijo no Asfalto, nas salas. Dogville, apesar do elenco extenso, é Mel Lisboa! Essa guria é f…! Basta lembrar dela em O Boca de Ouro, a versão barroco/tropicalista de Gabriel Villela. Sua Grace reinventa a de Nicole Kidman, com quem adquire certa semelhança física. Vou ter de voltar ao assunto, porque o texto do filme de Lars Von Trier, de 2003, que integra as catilinárias do autor contra a ‘América’ (Dançando no Escuro, Manderlay, A Casa Que Jack Construiu, etc), parece ter sido escrito para refletir o Brasil de 2018. Outro não foi o motivo para ganhar versão de Zé Henrique de Paula.