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Festival do Rio (12)/Chapadaço!

Luiz Carlos Merten

09 Outubro 2015 | 10h00

RIO – Em pleno festival, não tenho tido tempo de acompanhar eventos de cinema que ocorrem em São Paulo. Como o Festival de Cinema Chinês Contemporâneo no Cinesesc. Tinha entrevistas com Zhang Yimou e Gong Li, que voltaram a trabalhar juntos e me lembro que, em Cannes, no ano passado, ele me disse que lamentava que Coming Home não estivesse em competição por causa dela. Havia sido uma decisão do diretor artístico Thierry Frémaux, no competition/hors concours, e Zhang Yimou achava que era o melhor papel de Gong, que ela nunca estivera tão bem. Também ainda não vi a nova adaptação de James Barrie, que mostra como Peter vira Pan. Perguntei ontem a duas ou três pessoas se haviam visto e só ouvi não. Disseram-me que o filme foi mal lá fora, que não ‘aconteceu’, e isso, longe de me desestimular, aumenta minha vontade de conferir. Amo o Joe Wright de Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, com sua estética do plano-sequência e o uso que ele faz da câmera e do espaço. Mesmo Hanna, que não é tão bom como filme de gênero, tem cenas belíssimas de ação contínua. Estou em débito, portanto, e comigo mesmo, mas estou feliz com as surpresas que o Festival do Rio tem me proporcionado. Fiz a maior confusão e achei que estava indo ao Lagoon, ontem à noite, para ver sei lá que filme. Terminei vendo o duplo formado pelo curta Fantasias de Papel, de Tetê Mattos, sobre fotonovelas, que achei muito legal. Adorei rever toda aquela gente, na tela e no palco – Sandra Barsotti, uma de minhas ídolas, objeto de desejo há quase 50 anos, Monique Lafond, Françoise Forton, Aracy Cardoso, Roberto Pirilo, Ney Santanna, Emiliano Queirós, e outros. E veio o longa Aspirantes, do qual devo fazer hoje o debate, à tarde, no Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro. Subiram ao palco o diretor Ives Rosenfeld e sua equipe. Conhecia as duas atrizes, Karine Teles e Júlia Bernat, que foi uma das três irmãs de Chekhov, na montagem de Christiane Jatahy. O restante era uma molecada entusiasmada. O filme é sobre um time de várzea de Saquarema. Os garotos sonham com o futebol profissional. O protagonista mora com o tio, que o expulsa de casa. Tem uma namorada, que engravida. E tem o amigo, com o qual entra em choque. No final da sessão, quem estava em choque era eu. Chorei copiosamente. Rosenfeld e seus atores constroem as cenas no velho estilo de Ken Loach – estou sendo carinhoso, não demolidor -, como psicodramas. Três ou quatro delas me tiraram dos eixos. A briga de Karine e Júlia, que começa com uma observação do namorado da primeira sobre o que o aspirante, namorado da segunda, tem de fazer. O diálogo dos amigos, quando Ariclenes Barroso conta para o outro que Júlia engravidou. A briga dos dois no desfecho, que provoca uma reação física que me pegou completamente desprevenido. Dei um pulo e um grito – o velhinho deve ter enlouquecido, imagino que pensaram ao meu redor. E a discussão de Júlia e Ariclenes. Todo mundo chama o cara de moleque e ele está ali acuado, fazendo seu rito de passagem na marra. Cinema não é só emoção, mas também é, e eu gosto. Aspirantes é o melhor filme da Première Brasil que vi, até agora, e ela já vai chegando ao fim. O bacana é que pode concorrer em todas as categorias. Filme, direção, roteiro, ator, atriz e atores coadjuvantes. Estou surtado com a molecada de Ives Rosenfeld. Fiz uma pesquisa na rede e descobri que Locarno, no ano passado, já havia premiado Aspirantes como melhor filme em finalização. Finalizado, e o bom é que não termina de verdade, fica em aberto, ficou impactante, maravilhoso. Olhaí, Walter Carvalho (o presidente do júri). Carinho com o Aspirantes, que o filme merece.