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Festival do Rio (10)

Luiz Carlos Merten

10 de outubro de 2014 | 09h43

Cá estou de volta. Cheguei ontem à noite, mas vou manter o título Festival do Rio porque devo acrescentar mais dois ou três posts. Um é para dizer que, na terça à noite, fiz um programa duplo, vendo o documentário Peter de Rome, Avô do Pornô, sobre o precursor do cinema homoerótico masculino. Bem interessante, com todos aqueles críticos e historiadores descobrindo a profundidade de De Rome e a gente sendo brindado com cenas impossíveis, como o boquete e a penetração que ele filmou dentro de um trem do metrô de Nova York, durante uma viagem normal. Ou seja, o trem não estava fechado para a produção nem eram figurantes. Falo em produção, mas o cinema do cara era de guerrilha. Câmera na mão, visor no fuque/fuque, como dizia o Pasquim, e nenhum dinheiro. Unbelieveble. Emendei com Los Hongos, do colombiano Oscar Ruiz Navia, que bem pode ser o filme para completar meu top five do Festival do Rio. Tenho minha tese, que só copnsigo discutir com José Carlos Avellar, de que a Colômbia faz hoje o cinema mais interessante de Latino (e Íbero) América. A Argentina anda estagnada, com seus diretores correndo atrás de bilheteria; o Chile tem dois ou três diretores que surpreendem e só; e existem o Paraguai e o Uruguai, que fazem poucos filmes (mas bons). A Colômbia tem diversidade cultural, um cinema mulato – negro mesmo – e  eu gostei demais da vitalidade e musicalidade dessa ficção que acompanha dois grafiteiros de Cali. O melhor cinema brasileiro de ficção que vi no Rio foi um cinema de rua. O garoto de Ausência, de Chico Teixeira, trabalha na feira, o de Casa Grande, de Fellipe Barbosa, sai da proteção do condomínio e ganha a rua. No poderoso À Queima-Roupa, Theresa Jessouroun expõe a violência a que estão submetidas as comunidades e Rodrigo Felha, em Favela Gay, reinventa Rosa Von Prouheim, que eu nem sei se ele conhece – Não é o Homossexual Que É Perverso, Mas a Condição em Que Vive. Enquanto isso, Lírio Ferreira ensaia sua poesia no teatro da natureza e cria belas cenas isoladas (em Sangue Azul, vencedor do festival) e Murilo Salles, a quem admiro, mas não gosto do filme dele (O Fim e os Meios) e Daniel Aragão (Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade) não saem do estereótipo em sua representação da política, e dos políticos. Colômbia, gente. Aproveitei que encontrei o Jean Thomas Berrnardini na premiação do Festival do Rio e fui no ouvido dele – a Imovision bem poderia trazer Los Hongos e o mexicano Güeros. Nós, cinéfilos, agradeceríamos.

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