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Festival do Rio (1)/As poderosas

Luiz Carlos Merten

12 de dezembro de 2019 | 09h29

RIO – Cá estou, mais um festival, impossível não pensar em Mário Peixoto: menos um festival. Xô! Estou muito bem instalado, num quarto no alto de um grande hotel em Copacabana, com vista espetacular da praia e dos morros. Perdi o filme de abertura – Mulherzinhas -, porque precisava participar da votação da APCA na segunda à noite, em São Paulo. Vou ter de ver o longa de Greta Gerwig numa cabine, na volta, porque foi sua primeira e única apresentação no festival. Na terça, coroando uma temporada de grandes entrevistados – Juliette Binoche, Jonathan Pryce, JJ Abrams, etc -, encontrei-me com Gilberto Gil, na produtora dele, na Gávea, para falar de Antologia Volume 1. O documentário de Lula Buarque de Holanda leva Gil numa viagem por sua vida e obra. Lula selecionou composições e performances emblemáticas, e Gil comenta o momento, as circunstâncias de cada música. Domingo no Parque, Viramundo, Expresso 2222, Refazenda, Aquele Abraço, etc. Já havia entrevistado o Gil ministro, e ele, dessa vez muito zen, não quis polemizar com o atual ocupante do cargo. Disse apenas, e adorei, que manchetes ‘abundam’ neste governo. Tive um exemplo disso há pouco. Fui ao café, lá estava a Folha, com uma entrevista do ministro, aquele, abundando. O que se diz e o que se publica, impunemente, nesse País, é coisa de louco. Uma coisa que Gil disse e não consegui colocar na entrevista de ontem no Estado. O amor se aprende, não apreende. Profundo p’a cacete. A frase ficou comigo. Enfim, e apesar de todas as dificuldades, o festival começou. É o 21.º, o ano da maioridade, e foi realmente preciso muita para se chegar aqui. Piedade, premiado em Brasília, fez a abertura da Première Brasil, fora de concurso, mas eu me perdi de NET (mirava uma sala, fui em outra). Terminei vendo o Marcos Prado na abertura da competição, Macabro, com roteiro de Lucas Paraizo. Achei o melhor filme dele, uma história real inspirada na caçada a dois fugitivos, na região serrana de Nova Friburgo dos anos 1990, e eles são acusados do estupro e morte de várias mulheres. É um filme de clima, de paisagem, no sentido de que só podia se passar ali, de anti-herói, conforme conversei com o Marcos. Renato Góes interpreta um sargento do Bope que matou um homem – negro – durante uma operação no morro, na cidade grande, e não foi em legítima defesa, como a polícia gosta de apresentar as coisas. Para aliviar a barra, é enviado nessa nova missão, e ele é desses montes. É um homem em busca de regeneração. Só que o filme não é sobre isso – segunda chance -, mas é, pelo contrário, sobre o ódio que turva corações e mentes. Os fugitivos são negros e na área havia um quilombo que foi dizimado pelos colonos suíços que ali aportaram, no século 19. Ódio, racismo, violência. Mágoa, vingança. Bem-vindo ao Brasil. Achei o filme muito bem realizado. Cinema de gênero, popular. O título promete terror, mas está mais para thriller, e vigoroso. Já tenho candidato a melhor ator. Renato Góes é daquelas caras conhecidas que não identificava. Gostei demais do trabalho dele. Ontem, de volta ao Net Gávea, assisti a Anna, de Heitor Dhalia. Saí do cinema com a cabeça a mil, evocando meus anos de bastidores de teatro. O filme é sobre um diretor de teatro autoral que quer montar Shakespeare, Hamlet. Busca sua Ofélia, e é a personagem título, Anna. Quase destrói a garota. Mais um anti-herói – da cultura. Terminei fazendo uma ponte, para mim muito interessante, entre os dois filmes tão distintos – o de Heitor é assumidamente de arte, autoral e o distribuidor Jean-Thomas Tomasini e ele trocaram gentilezas na apresentação. O que seria do cinema de arte no Brasil sem Jean-Thomas, sem Ademar de Oliveira? O que seria da cultura sem Danilo Santos de Miranda? A ponte possível é que os dois filmes são sobre o empoderamento. A força está nas mulheres. Assim como Renato Góes em Macabro, Bela Leindecker é maravilhosa. Anna passou na Mostra, e não me lembro de alguém, algum coleguinha, me haver chamado a atenção para o filme. Ainda bem que o recuperei.