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Festival de Brasília (1)/Bellocchio e seu operístico Traditore

Luiz Carlos Merten

23 de novembro de 2019 | 13h06

BRASÍLIA – Cá estou, desde ontem. Cheguei à tarde e passei um mau momento, porque perdi os óculos – para perto – e tinha matéria para o jornal. Foi um sufoco fazer, e enviar. E mais ainda – conseguir um desses óculos de leitura, cuja venda é proibida no DF. Nada que não tenha conseguido resolver com a ajuda providencial de um motorista de táxi. Brasília possui a fama de ter o público mais politizado do Brasil. Maria Paula, como hostess, passou por maus momentos, porque o público vaiou durante toda a fala do secretário de Cultura, Adão Cândido. Talvez o atraso de mais de meia hora tenha acirrado os ânimos, mas divido que tenha sido isso. “Fora, Adão!’ virou coro no Cine Brasília, nessa hora em que a Cultura, e o cinema, vivem uma fase terrível no Brasil, perseguidas/criminalizadas e o cinema paralisado por um governo que não quer saber de diálogo e o programa parece ser asfixiar artistas e autores, para acabar com a oposição. Nem as homenagens a Stepan Nercessian e Fernando Adolfo, duas pessoas queridíssima, aliviaram a barra. ‘Fora!’ virou palavra de ordem. E veio o filme de abertura, fora de concurso – O Traidor, de Marco Bellocchio, uma coprodução internacional da Gullane Filmes. A história do mafioso Tommaso Buscetta, cuja delação ao célebre juiz Falcone representou um duro golpe na Cosa Nostra. Amo Bellocchio, mas o filme começa de um jeito esquisito, que me desconcertou. Buscetta define-se como um homem de família, mas a dele está desestruturada. Filho drogado, uma terceira mulher brasileira, com quem teve mais filhos. Além da perseguição da Cosa Nostra, que vai matar os filhos homens, tem a pressão do regime militar e a tortura – no Brasil -, quando até a mulher, Cristina, é pendurada pelos cabelos de um helicóptero. Maria Fernanda Cândido contou que ficou mesmo pendurada do helicóptero e, embora estivesse presa por um cabo de aço. por questão de segurança, aquilo quase destroçou sua coluna. Bellocchio não segue a trilha de Francis Ford Coppola e desromantiza/desmistifica sua Máfia. O filme só cresce durante o julgamento, que Bellocchio filma no próprio local, em Palermo, em que houve o julgamento real. Arma um circo, a que a música de ópera agrega teatralidade e essa dimensão operístca, própria do diretor desde De Punhos Cerrados, nos anos 1960, há mais de 50 anos, faz a força do filme, que aí, e somente a partir daí, vira um grande Bellocchio. Conversei com Maria Fernanda rapidamente, no final da coletiva, sobre o que deve ter sido sua dificuldade. A mulher, embora importante, é periférica na trama. Como atriz, ela construiu sua personagem com poucos elementos e o próprio espectador tem de preencher os vazios. Levantei a questão de que o que mostrar, ou secretar, também deve estar na Clarice Lispector que ela fez com Luiz Fernando Carvalho. Com pouca coisa, no Bellocchio, ela faz muito. Maria Fernanda me disse que foi o teor da crítica da Variety, que não conheço. O Traidor está indicado pela Itália para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional. Quem vai para a festa? Bellocchio ou Karim Aïnouz? Maria Fernanda ou Fernanda Montenegro? O bicho vai pegar. Torço para que pelo menos um dos filmes fique entre os cinco, já que os dois me parece mais difícil. Pela fala dos Gullane, durante a coletiva, também me parecem diferentes perspectivas de produção. Rodrigo Teixeira e eles. Vou ter de fazer matéria sobre o assunto. O Traidor está apontado para estrear em março/abril do ano que vem, nos cinemas brasileiros.