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Fellini e sua nave crepuscular, num mar de mentira

Luiz Carlos Merten

13 de março de 2020 | 22h11

Assisti, ontem e hoje, a dois filmes de Federico Fellini no Cinesesc, A Voz da Lua e E la Nave Va. Fellini nasceu em 1920, morreu em 1991. A Voz da Lua foi seu último filme e eu me lembro, na estreia, de haver escrito no Estado que ele tentava, mas quem realmente havia ouvido a voz da lua fora Akira Kurosawa, na admirável cena de Rapsódia de Agosto, de 1991, em que a avó e os netos sentam-se na varanda da casa para olhar o céu, à noite. Revi A Voz da Lua sem emoção. Belas cenas que não (me) deram liga. Em compensação, tive uma epifania assistindo a E la Nave Va. Num post recente, escrevi que preferia a Nave a Amarcord, mas não sabia quanto. Nave é de 1983, portanto contemporâneo de outro Kurosawa, Ran, de 1985. Via hoje Nave e pensava no Rei Lear do mestre japonês. A humanidade reunida no transatlântico que leva as cinzas da diva da ópera à sua última morada tem algo de fim dos tempos, como o velho cego que se equilibra à beira do abismo, conduzido por um louco. Gostaria muito que João Sampaio (re)visse o filme para podermos discutir sua riqueza musical. Embora não seja/fosse minha cup of tea, não sou louco de negar o gênio de Fellini. Gosto dos primeiros filmes (pós)neorealistas, impressiono-me com A Doce Vida e Oito e Meio, mas o Fellini posterior, com seu egocentrismo e a descontinuidade narrativa, me aborrece. Quero rever Satyricon, porque ali tem uma coisa que sempre me fascinou – a vitalidade da decadência -, mas Julieta dos Espíritos, apesar da Masina, e Casanova, dispenso. Existem cenas belíssimas em Roma e Amarcord, mas nada que se compare a E la Nave Va. Todo o episódio dos náufragos – refugiados – é de uma atualidade pungente, e o olhar do gay para os marinheiros, do velho para a garota remetem a desejos ainda hoje interditos. Quando o transatlântico é atingido e começa a afundar, com os corredores inundados, não pude deixar de pensar em Titanic. James Cameron com certeza viu a Nave. Adorei a disputa dos tenores e a intervenção de Ildebranda, que pode ser grande, mas nunca será tão grande como Tutmea, de quem a viagem é o suntuoso funeral. Ainda estava com o Clair de Lune de Philip Kaufman ecoando no meu imaginário – Os Eleitos – quando fui atropelado pelo de Fellini. Maravilhoso! E quando, no final, ele desmonta a própria mentira, mostrando que se trata de uma filmagem no célebre estúdio 5 de Cinecittà, que o mar e o rinoceronte são fakes e o navio é cenográfico, Deus! Tenho de admitir que Fellini era gênio. E la Nave Va terá novas sessões na terça, 17, no Cinesesc (21 h), na quinta, 19, no CCBB (16h30), e no domingo, 22, também no CCBB, às 15 h. Podem crer que, em alguma dessas sessões, lá estarei de novo.