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Felipe Hirsch e o seu glauberiano fim da História

Luiz Carlos Merten

16 de março de 2019 | 09h56

Se vivo fosse, Glauber Rocha teria completado 80 anos na quinta – nasceu em 14 de fevereiro de 1939. Seria uma idade perfeitamente razoável. Embora Leon Hirszman e Joaquim Pedro tenham morrido relativamente cedo, com 56 e 50 anos, Paulo César Saraceni chegou aos 80 e Nelson Pereira dos Santos aos 89 anos. Seguem vivos Cacá Diegues, com 78, e Ruy Guerra, 87. Lembrei o aniversário de Glauber num texto no online, e privilegiei seus três ou quatro filmes que, para mim, definem a identidade brasileira no cinema – Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe, O Dragão da Maldadee contra o Santo Guerreiro, Di Glauber. E por que estou lembrando isso, agora, no blog? Porque fui ver ontem Fim, a montagem de Felipe Hirsch sobre textos do argentino Rafael Spregelburg, no Sesc Consolação. Havia ficado impactado com o Milo Rau da véspera, na MIT. Numa cena de A Repetição – História(s) do Teatro (I), o ator passeia no palco levando um cachorrinho imaginário e, no telão, aparece o dog. Achei um toque de gênio. Já estamos acostumados a ver telões exibindo detalhes das montagens, como forma de diálogo entre teatro e cinema, mas Rau vai ao ponto. O imaginai do palco e o que a imagem pode ter de concreta, embora em Le Livre d’Image, Imagem e Palavra, sua mais nova obra-prima, Jean-Luc Godard advirta justamente sobre a manipulação das imagens como espelho do embate entre civilização e barbárie que ameaça nos devorar, na era das novas tecnologias. Tornou-se tão mais fácil manipular com essas ferramentas, e nas redes sociais. E o mundo enlouqueceu. O assassino na Nova Zelândia transmitiu o próprio ataque. Não basta destruir. É preciso exibir os signos, a isso nos trouxe a chamada civilização da imagem. Volto ao Felipe Hirsch. Ando em lua de mel com ele. Severina celebrou nossas núpcias. O fim das fronteiras, da arte, da nobreza, da história. Há um clima chekhoviano nessa hisatória (?) de um grupo que ensaia uma peça de teatro – a metalinguagem, como em Milo Rau. O fim – recomeço? Felipe Hirsch me deu a impressão de ter ido um passo à frente de Milo Rau. Sem câmera no palco, ele fez cinema. O Fim da história, a implosão de uma utopia chamada Brasil. A terra em transe. Emocionei-me muito com O Fim da História porque foi como ter encontrado Glauber naquele palco. Seria a peça – a desconstrução cênica – que ele faria. E o mais maluco, que estou tentando identificar até agora. O Fim da História, justamente aquele fragmento, o mais deslumbrante, me trouxe as imagens e os sons de Sob Nuvens Elétricas, de Aleksey German Jr., que fez depois Dovlatov. Tudo se encaixa no meu imaginário. Teatro, cinema, literatura. O fim, o meio, o (re)começo. Pena que me desencontrei do Felipe Hirsch no final do espetáculo. Jantei no Sujinho e vim para casa. Cheguei e passava na HBO Conexão Perigosa, um filme sobre competitividade no mundo das corporações. Uma estrutura bipolar, como em Glauber. Um homem entre dois mentores, interpretados por Harrison Ford e Gary Oldman. Deus e o Diabo, não vi até o fim porque ia terminar passado das 2h30 e estava cansado. Não deu para perceber quem era quem. Robert Luketic não tem a fama de Martin Scorsese, mas o filme não deixa de ser o seu Lobo de Wall Street. Como peguei implicância com Scorsese, estava achando até melhor. No centro de tudo, Liam Hemsworth. Nem me lembro direito, mas, quando entrevistei Chris Hemsworth e elogiei sua bela estampa, ele me respondeu em espanhol – que havia aprendido com a mulher – que o bonitão da família era Liam. E Miley Cyrus, também quando a entrevistei por aquele filme bobo da Disney, Hannah Montana, disse que era só pretexto para pegar uns australianos, que eram (são, segundo ela) a coisa mais hot do mundo, e Cirey catou logo o Liam. Casaram-se, não? O cara não é fraco. Estava adorando as cenas dele com Amber Heard. Um dia ainda termino de ver Conexão Perigosa.