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Fatiando o inimigo

Luiz Carlos Merten

16 de julho de 2012 | 17h34

Michael Ritchie deve sua fama a dois filmes que fez com Robert Redford por volta de 1970, ‘Os Amantes do Perigo’, o perfil de um campeão de ski, e ‘O Candidato’, sobre a campanha de um político progressista. Depois disso ele ainda fez ‘Smile’, sobre o universo dos concursos de beleza, fundindo em todos manifestações reais com personagens de ficção, o que conferia a seus filmes uma aura especial. Na Wikipedia, você encontra a definição de que foi um diretor de filmes prestigiados e (quase) experimentais. A crítica, porém, rapidinho desistiu dele e Ritchie morreu em 2001, aos 62 anos, de câncer de próstata. Havia vira especialista em comédias e filmes de esportes. Por que estou exumando um diretor esquecido? Na volta de Cannes, na passagem por Paris, comprei algumas edições de ‘Positif’ neste ano. Nem me lembro mais em que mês, mas a revista resgata o lançamento em DVD, na França, de um filme de Ritchie do qual me lembro de haver gostado bastante. Em seu ‘Dicionário de Cinema’, Jean Tulard já fala bem da violência delirante de ‘A Marca da Brutalidade’ e diz que o filme foi injustamente recebido. ‘Prime Cut’, o título original. O significado é cortar em fatias. É o que faz Lee Marvin, no papel de um assassino profissional, e é o que Gene Hackman quer fazer com ele, quando o astro de ‘Os Doze Condenados’ e ‘À Queima-Roupa’ aparece em sua jurisdição, num matadouro do Kansas, onde os desafetos do poderoso costumam virar picadinho. Marvin se envolve com (e toma sob sua proteção) uma jovem, interpretada pela estreante Sissy Spacek, na fase pré-‘Carrie’, com quem foge na hora H, uma cena muito bem filmada de ambos num campo de trigo, perseguidos por uma ceifadeira. Apesar da luminosidade, o ambiente é de desolação, inspirado, só pode ter sido, na perseguição de avião a Cary Grant em ‘Intriga Internacional’, de Alfred Hitchcock. É incrível como a memória visual da gente consegue ser cromática. Marvin usa um terno branco e uma camisa bege, o campo é amarelo (claro) e a ceifadeira, vermelha. Tenho revisto alguns filmes de Gene Hackman na TV paga (‘Os Imperdoáveis’, de Clint Eastwood; ‘Rápida e Mortal’, de Sam Raimi) e estou convencido de que ele é melhor quando o personagem é do mal. Não são muitos os coleguinhas na faixa dos 50/60 que vão se lembrar de ‘A Marca da Brutalidade’, mas estou seguro de que a maioria, face ao que aparece hoje nos cinemas,. vai até achar que o filme é legal. Ele é legal, mas não necessariamente porque o cinema dito ‘comercial’ piorou. Já vi crítico reclamar de blockbuster – mas não podia ser inteligente? –, em casos em que o filme em questão era ‘muito’ inteligente. A preguiça e/ou o preconceito é que impediam de ver.

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