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Faroeste com pegada crítica

Luiz Carlos Merten

18 de junho de 2013 | 17h10

SANTA FE – Cá estou no Novo México, Daqui a pouco faço um tour de jipe pelos locais em que Lone Ranger foi feito. Assisti ontem à noite ao filme de Gore Vercinski. Hoje pela manhã, entrevistei o diretor – grupo e one a one -, bem como Arnie Hammer, que faz o papel. Não posso dizer que não gostei do filme, mas falta alguma coisa. Em contrapartida, acho que tem ação, humor e cenas espetaculares – uma perseguição de trem no final – que vão deixar o público sem fôlego. De minha parte, surpreendeu-me a voltagem critica do filme. Logo no começo, há uma frase interessante sobre os tempos que correm (na história como fora dela), em que pessoas honestas (os heróis) viram outlaws e precisam usar máscaras. (A propósito, tenho acompanhado a distância a movimentação nas ruas do Brasil. Existem coisas que ainda não entendo, mas de tudo o que ouço falar o que mais me impressiona é uma coisa particular. A paixão do brasileiro pelo futebol sempre esteve acima de qualquer suspeita e a ditadura se beneficiou enormemente disso. Quando o Brasil foi penta, a euforia popular me deixou maluco, querendo que um dia o brasileiro se motivasse com aquela energia não somente com o futebol. Os protestos atuais contra os gastos na Copa me surpreendem bastante. Tudo bem, é possível que quando os jogos esquentarem mais, tudo isso fique para trás, não sei.) De volta a Lone Ranger, adorei o ator Arnie Hammer. Lone Ranger é um herói muito especial. Defende a legalidade, não quer ser justiceiro. O que você espera num filme dele, com ele? Hey-ho, Silver! Você não vai acreditar na cena. Arnie tem cara de bom moço. Você acredita na honestidade dele e, por extensão, na do personagem. Como ele me disse, quer papeis, jobs, não ser uma celebridade. O ator tem uma padaria não muito longe daqui onde estamos, em San Antonio, no Texas. Sua mulher é a padeira, ‘a melhor padeira do mundo’. Ele, obviamente, a ama… Na ficção, o mocinho desiste da mulher amada, viúva de seu irmão. Na vida, Armie desistiria da mulher?  “No way, she`s part of me.” Confesso que me emocionei com essa resposta dele. O cara ama westerns. Seus preferidos? Sete Homens e Um Destino,. de John Sturges, que adapta Os Sete Samurais de Akira Kurosawa (justamente pelo mix cultural), e Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood. Mas, para o filme, ele acha que a maior influência foi O Homem Que Matou o Facínora. John Ford! Achei Lone Ranger bem operístico. O filme se abre numa estação de trens, prossegue com o poder corruptor da ferrovia. Lembra o quê? Era Uma vez no Oeste. Perguntei ao diretor Gore se conhecia o clássico de Sergio Leone. “Are you kidding?” Ele chegou a me provocar – “cite qualquer cena e teste se eu não sei o diálogo de cor”. Sobre a voltagem crítica, disse que é consequência de sua decisão de contar a história do ângulo de Tonto (Johnny Depp). O olhar do índio, vítima do genocídio, implica na crítica A sociedade dos brancos. Poderia ficar horas, dias conversando com Gore e Arnie sobre westerns.  O filme estreia dia 3 nos EUA, para pegar o feriadão de ‘4th july’. No Brasil acho que será no dia 12. Fora do cinema, Santa Fé é impressionante. A arquitetura é hispânica, as casas em cores cruas. Muito amarelo e marrom (areias). A cidade não é grande. Dever ter uns 60 mil habitantes. Nunca vi, em lugar nenhum do mundo, tantas galerias de arte. Os prédios não são altos. Estou no Hilton e o hotel tem quatro pisos, dois escavados, para evitar a verticalização. Ando por aqui e a todo momento sinto que posso topar com John Wayne.

 

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