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Faroeste Caboclo

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2013 | 20h20

PARIS – Acabo de vir do teatro, quer dizer, fomos ao teatro, Elaine Guerini e eu. Jantamos num restaurante muito simpático em Montmartre mesmo (o teatro era o do L’Atelier, na Place Charles Dullen) e o mais bacana é que sentou-se ao nosso lado o Arnaud Desplechin. Como estava acompanhado, achamos que seria intrusivo abordá-lo no bar, onde tomamos um vinho, mas quando o cara se sentou ali grudadinho achamos que seria até indelicado fingir que não o conhecíamos. Foi ótimo, lhe falei do sucesso do cinema francês de autor no Brasil e citei o caso de Coeurs, de Alain Resnais, que ficou anos em cartaz em São Paulo. Ele ficou encantado, disse que era um de seus filmes favoritos e que, depois disso, tinha de ir lá bas, au Brésil. A peça, quase me esqueço de anotar, era um Beckett (Oh! Les Beaux Jours), com Catherine Frot, de Les Saveurs du Palais,. que havíamos entrevistado pela manhã e foi ela quem nos convidou. Ah, Paris. Já disse aqui no blog que é uma das minhas cidades preferidas e sempre penso, o que pode parecer pedante, que poderia perfeitamente viver aqui. Mas quem não, quando se é cinéfilo e existem todos estes cinemas de art et essai?

Mudando de assunto, e estou até abrindo parágrafo, entrou hoje aí no Brasil o Faroeste Caboclo, de René Sampaio, que amo (o filme, bem entendido). Fiz uma entrevista com ele que o próprio René disse que foi muito boa (a melhor?), mas fui penalizado e na edição do Caderno 2 minha entrevista foi para o pé da página, reduzida drasticamente. De qualquer maneira, o filme teve a página que merecia, por suas excelentes qualidades, e fico contente por isso. Confesso que, mesmo amando O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, gostei demais de Faroeste Caboclo, que me fez balançar. Cheguei a escrever na minha matéria de abertura de Cannes que era um absurdo que um filme como o de René não estivesse na seleção oficial. Ainda não havia visto os filmes de gênero selecionados por Therry Frémaux e, depois de assistir aos horrorosos Only God Forgives e Shield of Straw, de Nicolas Winding Fern e Taskashi Miike, aí sim é que queria hurlar porque Faroeste ficou de fora. Enfim, chega de conversa fiada e aqui vai a entrevista do René na íntegra.

 

1. Desde o título até a cena inicial, com sua armação à Sergio Leone, o filme se inscreve na tradição de gênero. Este ano,. havia em Cannes um monte de policiais, mas eram, de maneira geral, ruins. Teu filme teria salvado esse lado particular de Cannes. A pergunta – o gênero entrou porque servia para ilustrar a música do Renato Russo? Ou já tinhas esse desejo? O spaghetti westewrn é tua praia mais que o western hollywoodiano (de John Ford a Anthony Mann a Sam Peckinpah)?

O filme pra mim, como desejo de realização, sempre aconteceu de trás pra frente. A cena do duelo final, clímax da música, foi o motivo primeiro pra querer fazer este longa. Poderíamos ter adaptado de outra maneira, como uma troca de tiros entre gangues ou algo menos estilizado mas o barato era esse: procurar fazer o Faroeste Caboclo, já indicado pelo nome da música. Realmente muito bem notado por você: as referências de western são muito mais ligadas ao spaghetti do que ao modelo hollywoodiano, ainda que admire Ford e Peckinpah. Assim como os italianos, acho que essa é uma releitura latina das convenções do gênero, procurando um jeito fresco de trazer essa cinematografia pra nossa realidade. O Bom o Mau e o Feio (Três Homens em Conflito) e Era Uma Vez no Oeste estão certamente na minha lista de filmes preferidos, desde há muito tempo.

2. Teu filme retrata uma época específica de Brasília. Assim como o gênero é uma homenagem  ao cinema fundador para ti, a Brasília da ficção é das tuas reminiscências?

Sou um diretor brasiliense e cresci nos anos 80 lá. Apesar do filme se passar num período em que eu ainda era criança, tenho certeza que usei muito das minhas memórias da época e do meu entendimento da Capital pra rodar esse filme. Acho particular que essa história tenha sido contada por alguém nascido em Brasília.

3. A história de amor é étnica, envolve tráfico e violência. Nunca tiveste medo, tipo aonde esse roteiro poderia te levar?

O meu entendimento do filme e o dos produtores sempre foi que esse casal teria grandes diferenças. Uma delas poderia, como foi, ser étnica. Testamos atores mulatos, morenos e  brancos também, mas o Fabrício (Bolivariano) tinha a energia exata pro Joao que estávamos procurando. Ganhou o papel pelo enorme talento e comprometimento. O ingrediente da cor, que estava ainda diluído no roteiro original, cresceu na trama e isso se tornou também um assunto importante no filme. O tráfico e a violência se inserem dentro desse contexto pois, além de fazerem parte da música, dão estofo pra essa trama que, apesar de ser oitentista, continua atual. Aliás, diversas questões do filme continuam atuais. Mas, apesar desses temas, o que sempre me motivou foi a história particular de cada um desses personagens e mergulhar neles, coisa que, na música, é menos aprofundado. O objetivo era i ir nesse rumo e não  fazer um filme panfletário. A intenção é que todas as  questões acima fossem usadas a serviço da história. Nada que não fosse essencial ao drama deveria estar no filme. Espero que tenhamos conseguido fazer isso bem.

4. É verdade que, para honrar uma tradição do gênero – o duelo final -, começas pelo fim. Mas o desenho do filme sempre foi este? Construir uma história levando a este desfecho, e começar pelo fim?

A construção do roteiro foi de trás pra frente. O evento principal e climático do qual eu não queria abrir mão sempre foi o duelo. A música nos indica os motivos: uma briga por uma mulher e poder que divide dois traficantes. A partir disso, todo o resto foi estruturado. O recorte apresentando – Joao, Maria Lúcia e Jeremias, o tráfico e tudo o mais – foram construídos para que o duelo fosse não uma imposição mas o desfecho trágico e inexorável para a história, de forma que ele fizesse parte do filme e não fosse um apêndice apenas para contemplar a vontade de filmá-lo. Começar pelo fim era algo já pensado no roteiro mas que tomou essa forma definitiva nos últimos cortes. Eu e Márcio Hashimoto, o montador, tentamos outros caminhos mas esse, que era o original, se mostrou o que realmente queríamos contar.

5. Já abordamos o por quê do western, mas por que o Renato Russo?

Eu ouvi essa música quando tinha 14 anos, em Brasília, no rádio. Era um dia beeeem seco e eu estava deitado no chão da sala. Achei incrível tudo. A música, a história, o desfecho e, principalmente, que ela não acabava nunca. Quis desde sempre fazer esse filme, até porque eu já queria ser diretor. Anos depois, o Sinistro passou no Festival de Parati e reencontrei a  Bianca de Felippes. Ela era jurada e ficou minha amiga. Mais algum tempo se passou e num jantar, ela me perguntou se eu não queria fazer um longa que ela produziria. Eu disse: “Só tem um filme que eu gostaria de fazer no momento, mas os direitos já foram vendidos: Faroeste Caboclo”. Ela, que também era apaixonada pela música me pediu uma semana. Não sei direito o que fez mas, um mês depois, estávamos na sala da família Manfredini, assinando os contratos. O projeto que era meu virou nosso e o Marcello Maia depois se juntou pra fechar o trio que assina a produção.

6. É mera coincidência que teu filme chegue às salas logo após a cinebiografia do legionário urbano? Por acaso viste o filme do Fontoura sobre Renato Russo? Gostaste?

Não tive ainda a oportunidade de ver o longa deles. Ele estreou na reta final do Faroeste e realmente não tive tempo. A nossa data estava marcada pra 30 de maio desde novembro do ano passado e eles iam estrear em janeiro. Não sei por qual motivo eles adiaram e acabaram estreando numa data próxima a nós. Apesar de ter pensado bastante sobre o assunto, não saberia medir qual a real influência sobre essa proximidade pro nosso lançamento, mas penso que o saldo foi positivo, pois o assunto está quente.

7. Embora a letra da música tenha começo, meio e fim, não a seguiste literalmente. Por que as liberdades/diferenças?

A música é uma experiência de 9 minutos maravilhosa. Mas segue regras que não se aplicam a um filme. Ela respeita a métrica e a melodia. Já o filme respeita o drama e o ritmo da montagem e é uma viagem de 100 minutos. São duas experiências que para serem completas têm de ser diferentes. Para o filme acontecer buscamos o recorte que desse mais sustentação dramática e também o que mais me interessava como diretor. Porém, acho que fomos muito fiéis ao espírito da música. Acho até que ao não tentar fazer um clipe e sim um filme, estamos buscando essa adaptação fiel, ainda que não seja literal. Algumas passagens da música, inclusive, foram filmadas mas saíram durante o processo de montagem. Estarão nos extras do DVD e Vídeo On Demand do Telecine para quem quiser entender os critérios. Buscando o filme, deixamos apenas o que era essencial. Estão aí as histórias do Santo Cristo, Maria Lúcia, Jeremias, tráfico de drogas, traição , momento político, bagulho bom, crítica social, infância pobre, morte do pai e tantas outras coisas que a música tem e que fizemos questão de manter, preservando o espírito da música e criando uma narrativa contemporânea e crível dentro da gramática do cinema.

8. Teu elenco é do caralho. O Bolívar e a Iris (Valverde) vieram antes, durante ou depois do Luiz Fernando (Urbânia) e da novela Avenida Brasil?

O Fabrício Boliveira e a Isis Valverde ainda não tinham feito o Subúrbia e nem a Avenida Brasil quando rodamos o filme. Acho que, para todos nós, foi um salto enorme no escuro e que desembocou não só no filme, mas em outros excelentes trabalhos. O curioso é que o filme, ao vir depois, cria um  profundo registro cinematográfico após todos esses trabalhos que eles fizeram na TV, mesmo tendo sido rodado anteriormente.

9. E compadre, como foi dirigir aquelas cenas calientes?

Algumas cenas fora rodadas no calor do momento. Quando os personagens transam na casa do pai da Maria Lúcia, de uma maneira mais crua, filmamos em 2 ou 3 takes, quase tudo com câmera na mão. Já a cena deles transando depois do beijo no píer, que é mais lúdica, tem planos mais fechados e foi feita aos poucos, plano a plano, usando muito da magia do cinema e da montagem pra que terminasse como vemos na tela. Em ambas as situações,  a entrega do elenco e o carinho que um personagem tem pelo outro, foram fundamentais. Tudo foi muito intenso no processo. Vou só completar que esse filme, pra chegar até aqui, só foi possível porque houve um comprometimento enorme de toda a equipe, destacando o Gustavo Hadba e o Tiago Marques (fotógrafo e diretor de arte). Mas, principalmente porque os meus sócios produtores, Bianca de Felippes e Marcello Maia, foram até o fim em tudo. Outros teriam parado no meio do caminho e dito: já está bom. Essa dupla foi até o limite em tudo e temos um filme que nos faz felizes com o resultado e principalmente com o processo. É um filme de estreia que contou com a generosidade de toda a equipe pra ficar de pé.

 

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