As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Faroeste (a caixa)/Raoul Walsh e sua mulher que valia tanto

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2015 | 10h49

Em 1941, Raoul Walsh havia feito, com Humphrey Bogart e Ida Lupino, um de seus clássicos de gângsteres – Seu Último Refúgio/High Sierra. Oito anos mais tarde, Walsh transpôs a mesma história para o western e fez Colorado Territory/Golpe de Misericórdia, com Joel McCrea e Virginia Mayo. Na trama, McCrea foge da cadeia e é cooptado para um último golpe. Ele espera usar o dinheiro para recomeçar a vida, mas é traído pela mulher e pelo bando. Caçado, acuado, enfrenta o derradeiro tiroteio, mas ganha a companhia de Colorado, mulher que participou do golpe e decide permanecer com ele. Walsh baseou-se num romance policial de W.R. Burnett e, com as duas variações da mesma história, mostrou as similaridades entre o cinema de gângsteres e o do Oeste. Depois dele, Delmer Daves e Gordon Douglas, ambos no mesmo ano, 1958, fizeram, respectivamente, O Homem das Terras Bravas e O Terror do Oeste, adaptando O Segredo das Joias, de John Huston, e O Beijo da Morte, de Henry Hathaway. O próprio Hathaway, nos 60, fez Nevada Smith, com Steve McQueen, contando a história do personagem de Alan Ladd em Os Insaciáveis, de Edward Dmytryk, que é O Aviador bom, não o de Martin Scorsese. Rever Golpe de Misericórdia é muito interessante porque, a par da intensidade dos conflitos físicos e da iconografias próprias do western (assalto à diligência e ao trem, cavalgadas, acampamento noturno etc), o filme tem uma parte final que ganha em escolhas morais e ambivalência ética. O Colorado do título tanto pode ser o território da ação como a personagem de Virginia Mayo, que cria mais uma daquelas mulheres fortes, decidas e consequentes, das quais Walsh parecia possuir a fórmula, ou o segredo. Pouco se fala hoje em Virginia Mayo, mas ela reinou no cinema de ação da RKO e da Warner, nos anos 1950, em filmes de grandes diretores como Walsh, Jacques Tourneur e Gordon Douglas. Sempre achei muito legal uma história que li, não me lembro onde, sobre como o sultão de Bahrein, de passagem por Hollywood, visitou o estúdio da Warner e, diante da bela Virginia, teria dito que ela era a prova viva da misericórdia de Alá pelos homens. Acho essa história muito instrutiva. Altri tempi. Hoje, Virginia Mayo seria apedrejada pelos islamitas radicais. mas ela é eterna em Nenhuma Mulher Vale Tanto/The Iron Mistress, de Douglas, com Alan Ladd como o lendário Jim Bowie, e a amante de ferro tanto pode ser a fatal Virginia como a faca que Bowie manejava com tanta destreza. O mais curioso – o desfecho de Golpe de Misericórdia. McCrea e Virginia sob fogo cerrado, as mãos que se buscam, tudo remete ao final de Duelo ao Sol, western romântico, desequilibrado e mítico de Henry King com Gregory Peck e Jennifer Jones como amantes malditos. Confesso que estou perdendo uma cabine, mas escrever sobre velhos filmes que marcaram meu imaginário me dá imenso prazer. Não creio que seja nostálgico – o passado era melhor etc -, mas curto muito as minhas madeleines. Não sei quanto ou se elas são compartilhadas, mas, pegando carona em John Ford, ninguém se machuca com essas histórias e elas me enchem a alma.