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Faroeste (a caixa)/John Ford e as odisseias de seus bravos

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2015 | 10h03

John Ford tinha uma preferência toda especial por Caravana de Bravos, Wagon Master, de 1950. No livro com a entrevista que deu a Peter Bogdanovich, chega a dizer que escreveu a história original, depois roteirizada por Frank S. Nugent e por seu filho, Patrick Ford, e que o resultado final ficou muito próximo daquele que pensara inicialmente. E Ford acrescenta que poucas vezes isso ocorreu com ele. Cita os casos de O Fugitivo, que adaptou de Graham Greene, e O Sol Brilha na Imensidão, que era, realmente, seu filme do coração. Não creio que O Fugitivo, apesar do apreço do mestre, seja um grande Ford. É um de seus filmes ‘artísticos’, como O Delator, que lhe valeu o primeiro Oscar, em 1935. Tem uma fotografia rebuscada demais para o meu gosto, de Gabriel Figueroa, e a creise de consciências do padre interpretado por Henry Fonda ficou datada e hoje me parece pura carolice. Não acontece muita coisa em Caravana de Bravos, ou então é o tom do filme que faz com que a gente pense assim. Pois na verdade ocorre bastante coisa. Uma caravana de mórmons ruma para o Oeste. Encontram um grupo e o guia (Ben Johnson) se envolve com Joanne Dru. Topam com pistoleiros fugitivos que não diferem muito dos Clanton de Paixão dos Fortes e há um ator alcoolizado como naquele western clássico com Henry Fonda e Victor Mature. E Ford filmou em Monument Valley, um solo sagrado de seu cinema, que tive o privilégio de conhecer. Ford ganhou o título de Homero de Hollywood por filmes como esse, que contam odisseias de grupos. Anos mais tarde, Wagon Master virou série de TV, Wagon Train, com Ward Bond, que já é o responsável pela caravana desse filme, que integra a caixa de faroestes da Versátil. Ford terminou fazendo, em 1960, um famoso episódio da série Wagon Train, The Colter Craven Story, que confesso que nunca vi. A Bogdanovich, ele confessa que fez Caravana de Bravos para seu prazer pessoal, e para oferecer papéis a coadjuvantes que, em outros de seus filmes, não tiveram muitas chances, mas eram muito bons. E Ford, homem do sistema, diz que sabia que o filme não ia fazer dinheiro, mas manteve os custos baixos para que o estúdio e o produtor também não perdessem. “No final, ninguém saiu machucado e eu me diverti.”

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