As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Faroeste (a caixa)/Jacques Tourneur e a desconstrução do mito de Wyatt Earp

Luiz Carlos Merten

11 de novembro de 2015 | 12h31

Gigante loiro de olhos azuis, Joel McCrea parecia talhado para ser herói de westerns, mas ele fez muito teatro e, depois, comédias (Contrastes Humanos, de Preston Sturges) e dramas (Infâmia, de William Wyler, a primeira versão) antes de se afirmar nas chamadas ‘horse operas’. A caixa de faroestes da Versátil traz dois que ele fez sob a direção de Jacques Tourneur – O Testamento de Deus e Choque de Ódios. O primeiro dispõe de ótima reputação, mas o segundo é melhor. O cinema contou muitas vezes a história do xerife Wyatt Earp, quase sempre privilegiando sua passagem por Tombstone e o célebre tiroteio do OK Corral, quando Earp e seu amigo Doc Holliday enfrentaram os Clanton. O episódio faz parte da lenda do Oeste e esculpiu a fama de Earp e Doc como mocinhos, mas uma reportagem na revistas Life, em 1960, investiu contra o mito, pintando o retrato de um xerife autoritário e celerado, que teria enfrentado e dizimado a família Clanton numa disputa por terras envolvendo seu irmão. John Ford (Paixão dos Fortes/My Darling Clementine) e John turges (Sem Lei sem Almas) filmaram a lenda, em 1946 e 57, mas o segundo dirigiu, em 1967, outra versão, a revisionista A Hora da Pistola. Em 1955, Jacques Tourneur já ia na contracorrente e desconstruía o mito em Choque de Ódios. título original é Wichita e o filme retrata o período em que Earp foi xerife da cidade, entre 1870 e 75, ou seja, bem antes do tiroteio de Tombstone, em 1881. Wichita era, então, uma das cidades mais florescentes do Oeste. Com a chegada do trem, convertera-se em centro de transporte de gado, atraindo todo tipo de gente (pistoleiros, jogadores, prostitutas etc). Earp é contratado para limpar Wichita. Leva tão a sério a função que, de solução, torna-se um problema para a cidade, porque a lei que impõe é a dele. Quem não reza por sua cartilha é expulso ou, pior, morto. A intransigência começa a prejudicar os negócios. Jacques, filho do também diretor Maurice Tourneur, fez o cult noir Out of the Past/Fuga do Passado e a sensacional aventura O Gavião e a Flecha, com Burt Lancaster e… Virginia Mayo. Tourneur despoja Wyatt Earp de sua aura e pinta o retrato de um obstinado que se isola e volta o mundo contra ele. Nesse sentido, Wichita antecipa o genial Warlock/Minha Vontade É Lei, de Edward Dmytryk, em que Henry Fonda, contratado para limpar a cidade, se instala como poder supremo e só consegue ser desmontado pelo herói solitário, Richard Widmark, no que não deixa de ser uma metáfora redentora sobre o macarthismo, com o qual o diretor colaborou, destruindo sua reputação. O mais curioso é que Choque de Ódios faz uma descrição do cotidiano da cidade de Wichita tão cuidadosa quanto a da Tombstone de Ford, e isso é muito importante porque poucos filmes, da época, relacionam tanto om indivíduo e a comunidade. Também curioso é que, embora filmado no formato cinemascope, o filme constrói seus momentos decisivos em ambientes reduzidos ou fechados. Tudo isso é muito bem analisado por Quim Casas em Películas Claves del Western, que bem poderia ser a Bíblia dos fãs de faroestes.

Tendências: