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Fantasma… do rock

Luiz Carlos Merten

30 Julho 2012 | 10h40

Sokurov (de novo) ou rock no cinema? Depois de fazer os filmes na TV, na manhã de ontem, na redação do ‘Estado’ – onde estou agora –, fui almoçar no grill República, que faz, no domingo, um delicioso peixe na moranga. Estiquei até a Galeria Olido e descobri que havia um ciclo que me passara despercebido, sobre cinema e rock. Fiz um programa duplo, assistindo a ‘Ruas de Fogo’, de Walter Hill, e ‘O Fantasma do Paraíso’, de Brian De Palma (que vai estar em Veneza com seu novo thriller). Lembro-me de um texto de José Onofre sobre o prazer de filmar de Walter Hill, dizendo que o desafio que ele propunha, a cada filme, era tratar o clichê com a euforia de quem está descobrindo o ato de filmar. Onde anda Walter Hill? Eu gostava de seus westerns , ‘Cavalgada de Proscritos’ e ‘Gerônimo: Uma Lenda Americana’ e ontem me diverti com os estereótipos de ‘Ruas de Fogo’, que tem toda a cara, exceto pelo visual, de um filme de rock dos anos 1950. O ‘herói’ resgata a ex-namorada roqueira, que foi sequestrada pelos selvagens da motocicleta, com a ajuda de uma garota muito macha. O filme é a representação do pós-moderno que, no começo dos anos 1980, dava o tom de um certo cinema estiloso – muito neon refletido no asfalto molhado, coreografia de violência, gangues urbanas. E viva o ‘neon realismo’, de vida efêmera. Diane Lane virou a madura mais sexy de Hollywood, Amy Madigan uniu-se a Ed Harris – não sei se ainda são casados –, mas Michel Paré, o bonitinho rebelde na cola de James Dean, não foi muito longe, perdeu a forma e virou vilão em produções Z. A vida, em Hollywood, pode ser mais cruel que o cinema. ‘O Fantasma’ é melhor e a mistura de rock e horror de De Palma me deixou siderado. O filme transpõe para o rock a história do Fantasma da Ópera e o curioso, e que não me lembrava, é que a cantata da qual o personagem de Paul Williams (o produtor sem escrúpulos) se apossa é inspirada em ‘Fausto’. O autor, do qual ele roubou a partitura, vai preso, enlouquece e, com o rosto deformado, assombra, qual fantasma, o backstage da nova casa de rock de Williasms, o Paraíso. De Palma ainda estava em princípio de carreira, na fase de pastichar Alfred Hitchcock, mas aqui suas influências são o expressionismo alemão e o cinema de horror dos anos 1920/30 – ‘O Médico e o Monstro’ de Rouben Mamoulián –, aplicados ao universo roqueiro. Por menos que conheça do assunto, é interessante notar como De Palma, cujo filme foi ‘vendido’ como spoof (e fracassou na época) na verdade estava adiante do seu tempo. A bizarrice de seus roqueiros – a banda Juyce Fruit, Gerritt Graham como ‘Beef’ – revela um olhar muito arguto sobre o rock dos anos 1970 e eu saí da sala pensando em Carlos Reichenbach, que compartilhava minha paixão pelo ‘Scarface’ de De Palma. Carlão gostava de ‘O Fantasma do Paraíso’? Com certeza, sim. O filme tem a dimensão transgressora do cinema que ele amava. Curti imensamente e, embora o desfecho tenha me parecido caótico (confuso?) e saí do Olido cantarolando o ‘Fausto’. Dali fui para a Reserva Cultural para rever… o ‘Fausto’ de Alexander Sokurov. Tive um choque, mas esperem o próximo post, para saber.