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Face à salada dominante, onde está a Liga da Justiça?

Luiz Carlos Merten

18 de agosto de 2015 | 10h02

Estava em Gramado quando, no primeiro fim de semana do festival, Jorge Furtado deu uma entrevista em Zero Hora. Real Beleza havia estreado e ele falava de tudo. Cinema, claro, e política. Jorge levantou questões de ordem que já estavam em seu belo ensaio O Mercado de Notícias sobre a relação da imprensa com o PT, falou do seu desejo de realizar uma obra duradoura, formada por filmes que permaneçam e não sejam consumidos e descartados com pipoca e refrigerante. Falou no seu ideal, que é o filme que diverte e faz pensar. Gostei muito da entrevista, menos da parte em que o assunto caiu em blockbusters e Jorge repetiu o mantra da vez. O cinemão já era, a criatividade do audiovisual dos EUA está hoje na TV etc. No fundo, até entendo, mas não posso nem falar, porque não vejo séries, vocês sabem. Outro dia me falaram que, em House of Cards, Kevin Spacey virou presidente e a mulher, a primeira-dama, e ele fazem um ménage com o motorista da Casa Branca, que, obviamente, come os dois (sou eu a deduzir). Uau! Que ousadia! Kevin Spacey é um dos atores mais limitados que conheço, porque ele representa todos os seus personagens da porta do armário, com um dandismo que a mim enfada, mas pelo visto só eu devo achar isso, porque é um dos atores mais premiados do mundo. Dois Oscars, mais Globo de Ouro, Emmy, SAG Award. O cara ganhou tudo. Tanta gente melhor não ganhou nada, mas, enfim, é como roda a vida. Pois em Gramado La Salada, o filme mais fraco (o menos bom) da competição, não ganhou os prêmios do júri e da crítica? Nunca vi Downton Abbey, mas acompanhei pela imprensa, em Gramado, a comoção pela temporada final, os atores chorando e o criador Julian Fellowes anunciando que poderá virar filme. Mas já virou, não? Fellowes escreveu Assassinato em Gosford Park para Robert Altman, diluindo As Regras do Jogo, Jean Renoir, por um mistério à Agatha Christie. Dentro do princípio de que a televisão é hoje melhor e mais ousada, Fellowes mostrou do que é capaz em Downton Abbey e em Gosford Park o tal de Altman forçou-o a diluir o que seria um monumento de audiovisual e uma extraordinária crítica da luta de classes. É isso? Ironizo, bem entendido, e deixo claro porque senão alguém vai achar que estou atacando o pobre Altman (mas dizer que não estou é meia verdade). Voltando ao raciocínio de Jorge, se o bom filme diverte e faz pensar, existem muitos blockbusters (todos os de Christopher Nolan e Zach Snyder) que divertem e fazem pensar, o problema é que a maioria das pessoas não pensa. A série do Batman de Nolan tem proporcionado a discussão mais sólida sobre mecanismos de controle social no mundo globalizado que saiu de Hollywood ou de qualquer outra cinematografia do mundo. Zach Snyder vai radicalizar isso, porque Batman Vs. Superman é sobre o surto autoritário do segundo e a criação da Liga da Justiça para impedir que super-heróis usem seus poderes para dominar o mundo. Não sei se o que escrevi faz sentido para os outros – vocês -, mas, para mim, a mediocridade de certas premiações e o mantra da superioridade da televisão estão ligados, da mesma forma que me parece esquizofrênico viver como hoje se vive na indústria cultural, tentando refletir sobre o mundo num mundo que não está muito interessado em reflexão e sim, na intimidade dos célebres da vez, muitos tão inexpressivos que não terão direito a mais que os 15 minutos de celebridade que Andy Warhol, como um profeta, lhes prometeu.