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Faça-se a luz, Mr. Wiseman!

Luiz Carlos Merten

19 de outubro de 2014 | 09h15

BH – Cá estou, despedindo-me da Mostra CineBH deste ano. Embarco daqui a pouco para São Paulo e para a outra Mostra. Tive ontem um dia intenso aqui em Minas. Revi Sangue de Heróis/Fort Apache, de John Ford, apresentação seguida pelo video-ensaio sobre o Homero de Hollywood. Já gostava de TAg GAllagher, o autor. de livros seminais sobre Ford e Roberto Rossellini. Conversei ontem com ele e o encanto se multiplicou. Citei o livro de CHris Fujiwara sobre Otto Preminger, ele quis saber qual o meu Preminger preferido. Quando disse que era In Harm’s Way/A Primeira Vitória, ele deu um pulo – é o dele, também. Ambos exclamamos ao mesmo tempo – Patricia Neal! Nunca houve outra mulher como aquela em Hollywood. Continuamos falando sobre Preminger. Há 50 e poucos anos, Preminger foi chamado de sionista por causa de Exodus. Hoje, o filme corre o risco de ser chamado de antissemita por seu foco do terrorismo. No video-ensaio sobre Ford, Gallagher contesta André Bazin e seu conceito da montagem invisível, que ele atribui ao grande diretor norte-americano, em O Que É o Cinema? Emendei Ford e Gallagher com Irma Vep, um Olivier Assayas que não conhecia – seu tributo ao cinema silencioso francês e a Louis Feuillade, com sua então mulher, Maggie Cheung. Voltei ao hotel, jantei e encerrei a noite vendo – finalmente! – National Gallery. Em Cannes, na Quinzena dos Realizadores, e no Rio, deixei de ver o documentário de Frederick Wiseman porque sempre batia com outra coisa, ou outras coisas, porque com suas três horas ele é bem longo. Digo isso sem reclamar de nada porque gostei demais. Wiseman sempre fez seus documentários não institucionais sobre instituições. A National Gallery, de Londres, lhe permite abordar tudo – a arte e os artistas, a vida, as questões do patrocínio e do marketing, o restauro. Na Mostra, aí em São Paulo, está passando El Sol del Membrillo, de Victor Erice, com sua discussão sobre a luz e o efêmero – da criação artística e do tempo. Vinte e tantos anos depois, Wiseman retoma a discussão de Erice. Especialistas falam sobre a luz, sobre como grandes quadros foram produzidos e como deviam/devem ser olhados. Uma grande aula, não necessariamente didática, sobre os atos de ‘olhar’ e ato de ‘ver’. Não será esse o enigma primordial do cinema? Quantas vezes nós, o público, olhamos sem ver? E, culminando tudo, um balé é encenado. A mise-en-scène no documentário. Saí duas da manhã do Palácio das Artes – pela mudança de horário -, completamente chapado. Esse Wiseman não é mole, não. Sigo daqui a pouco para o aeroporto. À tarde e/ou À noite, a gente se encontra em algum programa da Mostra de São Paulo.

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