As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Extremamente perverso, chocantemente maligno, Ted Bundy

Luiz Carlos Merten

18 de julho de 2019 | 18h56

Acabo de ver Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile na cabine da Paris. Confesso que, neste dia que está sendo tenso – Bolsonaro vai mesmo anunciar a extinção da Ancine ou puxá-la para a Casa Civil, para exercer maior controle da agência? -, tudo o que eu não precisava era ver um filme como o de Joe Berlinger para me deprimir ainda mais. No Brasil, chama-se Ted Bundy, A Irresistível Face do Mal e baseia-se na história do serial killer que foi executado em 1989 – há 30 anos. Confesso que não sabia nada sobre o personagem, e foi melhor assim. Vi o filme num estado de virgindade mental, daí a perturbação. Se for o caso de quem me estiver lendo, sugiro que interrompa a leitura e deixe para continuar após o lançamento, na quinta que vem, 25. O título original – Extremamente Perverso, Chocantemente Maligno, e Vil – vem da sentença do juiz Edward Cowart, manifestando seu desgosto pelo homem que assumira a própria defesa e que o magistrado da Flórida reconhecia como alguém sedutor e brilhante, e cujo charme o tornava ainda mais perigoso para a sociedade. Depois de negar sistematicamente que fosse um assassino serial de mulheres, Ted Bundy terminou por assumir dezenas de crimes brutais que, nas palavras do juiz, revelavam total ausência de humanidade. Na visão de Berlinger, há um imenso vazio no lugar da interioridade de Ted. Não o vemos cometer nenhum crime, nenhuma violência, o único indício de que algo pode estar errado é a reação do cachorro, no canil. O filme divide seu foco entre Zac Efron e a mãe solteira interpretada por Lily Collins, com quem ele tem um caso e que começa a duvidar cada vez mais de que Ted seja a pessoa que diz ser. Liz, é seu nome, não pensa apenas na própria segurança, mas na da filha, e teme, ó paradoxo, pelo que não chegou a ocorrer. Ted permanece um enigma no sorriso de Zac. Nenhum flash-back, nenhuma cena para fomentar no espectador um possível trauma de infância. Os crimes não necessitam de motivação – extremamente perversos, chocantemente malignos. O estilo um tanto melífluo de John Malkovich, que faz o juiz, realça o desgosto, e quando ele diz ao homem que condenou – ‘Cuide-se’ – , é outra forma de dizer ‘Deus se apiede de sua alma’. A velha história de que, de perto, ninguém é normal e você pode viver muito tempo com alguém sem nunca conhecer essa pessoa. Quem não teve a experiência de descobrir verdades ocultas, de se decepcionar? No final, ainda tem a parte ‘real’. Ódio contra ódio, a pena de morte. Assistir a Ted Bundy é como saltar no vazio de um mundo mesquinho, sem grandeza, o que me remete ao post anterior. Embora bem-feito, e bem interpretado, gostar ou não gostar, eis a questão.