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Extase (2)

Luiz Carlos Merten

15 de outubro de 2013 | 09h10

Existe um verso de Caetano (em Sampa) no qual me amarro. É quando ele fala na dura poesia concreta das esquinas de São Paulo. Não sei se já relatei aqui no blog, mas e daí, se já? Quando São Paulo comemorou 450 anos, Caetano fez um show na esquina famosa, Ipiranga com São João. É um lugar ao qual tenho de voltar, sempre. Caetano foi passar o som, e enquanto ele cantava Sampa, um menino de três ou quatro anos brincava indiferente a seu canto. Aquilo foi uma das coisas mágicas da minha vida, uma das raras vezes em que achei que uma imagem valia dez mil palavras. A gente só se arrepende do que não faz. Cheguei a pensar nos 500 anos de São Paulo. Não vou estar aqui, mas um jornal como o Estadão, se ainda houver jornal, e mesmo que não haja mais impresso, da forma que for, estará. Pensei em como seria procurar aquele menino, que já estará com mais de meio século de vida, para confrontá-lo com suas lembranças. Deveria ter tomado seus dados. Nome, filiação, para que alguém pudesse partir em busca do personagem. Divago. A bruta poesia e a feiúra de São Paulo me inspiram. É possível tirar disso uma particular beleza e uma humanidade que me inspiram. Acho que a gente só conhece as cidades indo ao reverso do cartão postal. Pensei tudo isso vendo ontem o filme de Lina Chamie, São Silvestre, que é também (e principalmente?) sobre São Paulo. Pensei também que, nos 24 anos em que estou na cidade (e que vão se completar em dezembro), só no primeiro não assisti à São Silvestre. Desde dentão, estou sempre em São Paulo neste dias, e naquela esquina. Em seu filme – seu ‘híbrido’ – Lina Chamie não busca embelezar a cidade, mas cria uma topografia que respeita o espaço geográfico. E quando sua câmera passa por espaços míticos – o Pacaembu, o Municipal -, o relato esportivo (e o gol), a ópera ocupam sua trilha. Queria que aquilo não acabasse nunca. E por mais que goste de O Som ao Redor e Faroeste Caboclo, acho que, no limite, os filmes brasileiros que vão ficar comigo em 2013 serão o da Lina e o de Aly Muritiba, A Gente, que bem poderia estrear até dezembro para entrar nos meus destaques do ano.

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