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Êxtase! (2)

Luiz Carlos Merten

15 de julho de 2013 | 16h04

Em 1977, Damiano Damiano fez o último de seus filmes políticos, Io Ho Paura, que foi lançado no Brasil como Eu Tenho Medo, mas tenho de confessar que não vi. Era a história de um policial, Gian-Maria Volontè, designado para defender um juiz ameaçado de morte (o bergmaniano Erland Josephsson) e eu sempre me perguntei se, face ao recrudescimento do fascismo na Itália, após a escalada do terrorismo, Damiani não estaria pegando carona em Luigi Pirandello., Quando morreu, em 1936, o autor deixou inacabado seu último texto, Os Gigantes da Montanha. Na véspera da morte, em conversa com o filho, ele chegou a comentar que ia matar a Coindessa Ilse, personagem decisiva da história, mas esse fecho nunca foi escrito. O que ficou foi a frase ‘Io ho paura’, Eu tenho medo, a última coisas que Pìrandello escreveu e na qual se pode ler a preocupação do artista pela consolidação do poder por Benito Mussolini e seus camisas negras. Mesmo inacabada, a peça é considerada uma das obras-primas e até a obra-prima do autor de Henrique IV e Seis Personagens Em Busca de Um Autor. Diante do final, ou não final, atores e diretores sempre quiseram imprimir sua marca, buscando o melhor desfecho para a fábula que aborda o valor do teatro e da poesia, que ensina que a imaginação, mais que um refúgio, é uma arma para se enfrentar a realidade adversa, e que os espíritos, os fantasmas, podem ser contrapontos à transitoriedade dos corpos. Vocês podem imaginar como tudo isso me é caro, a mim que amo a fantasia e procuro sempre ver o que existe além das aparências, caso, por exemplo, do Homem de Aço de Zach Snyder, que não esconde, por trás da parafernália de efeitos, a vocação do autor para o melodrama. Foi emocionante assistir a Os Gigantes da Montanha no palco montado no campus da Universidade Federal de São João Del Rei, ontem à noite. Pode ser que me engane, mas fiz uma pesquisa rápida ao chegar ao Estado e os implacáveis arquivos do jornal me revelaram que a última montagem dos Gigantes havia sido por Moacyr Goes, no começo dos anos 1990, no Rio. O frio era intenso em São João Del Rei, mas o elenco e o público protagonizaram uma experiência única. No final, o povo ainda festejava com os atores enquanto o palco ia sendo desmontado. De repente, não havia mais nada, como se tudo aquilo tivesse sido um sonho – o próprio tema de Pirandello. Numa carta autobiográfica, em meados dos anos 1920, o próprio Pirandello disse que, na vida dele, não havia nada que merecesse ser salientado, e toda ênfase deveria ser colocada no seu trabalho – e nos personagens, que não são, nas palavras do sr. Luigi, alegres. E ele acrescentou uma coisa que sempre achei muito forte – que a vida é uma palhaçada triste, porque todos temos em nós (e foi sempre sua crítica ao homem) a necessidade de nos autoenganarmos, criando uma espécie de representação, diferente para cada pessoa, que termina por diluir a realidade em vão ilusionismo. A declaração antecipa a peça Os Gigantes em 12 anos, mas parece feita como sustentação conceitual, ou teórica, da obra. O grupo de atores chega à vila habitada por mendigos e fantasmas, e desiste de encenar sua peça mambembe, reservando-a para os tais gigantes, que bem podem ser, como emanações do poder, o fascismo que se projetava sobre a Itália. Temos personagens arquetípicos, como a Condessa Ilse, seu marido e o líder do povo da aldeia, Cotrone, cujas falas são uma síntese (crítica) sobre o que pensava o autor a propósito da arte e da vida, da realidade e da imaginação, do realismo e da fantasia. Não sei se o diretor mineiro Gabriel (Villela) vai gostar do que vou dizer, mas acho que ele é grande em indoors, peças como Salmo 91, Hécuba ou Macbeth, mas creio que Gabriel consegue ser melhor ainda, como se fosse possível, outdoors, em montagens de rua, como as que fez com o Grupo Galpão, Romeu e Julieta e, agora Os Gigantes da Montanh, ou antes com os Clowns de Shakespeare, Sua Incelença, Ricardo III.  O substrato de Os Gigantes do Gabriel é popular, mas o detalhismo, o capricho, é tudo coisa que transpira a erudição do diretor. O elenco é de tirar o chapéu e a Inês Peixoto, que faz a Ilse, mereceria ser carregada em triunfo, o que a Teuda Bara, em sua generosidade, também magnífica como a sonâmbula, deve aceitar numa boa. E não estou falando da trilha. Gabriel, como sempre, trabalhou a voz de seus atores com Francesca Della Monica, Babaya e Ernani Maletta,  e o que eles cantam, como cantam, é de arrepiar. Vou me permitir uma confissão, mais uma. Quando jovem, 15 ou 16 anos, eu  era um adolescente cheio de complexos, como todos, mas meu defeito físico ainda agravava isso, por mais que tentasse mascarar (e a vida terminou sendo muito boa comigo). Naquela época, Sergio Endrigo criou uma música que parecia feita para mim – Io Che Amo Sole Te. Lembram-se? Che gente/c’è ha avuto mille cose. Passaram-se 50 anos, ou quase, e a ‘minha’ música vira matéria de (re)criação para meu amigo. Isso, mais que as citações a Michael Cacoyannis e ao cinema, foi um presente que Gabriel, inconscientemente, me fez. E La Golondrina, que ele já usou na trilha de Vestido de Noiva, é o fecho glorioso para uma obra que, há quase 80 anos, tem sido um desafio para encenadores.

 

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