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Existe narrador confiável na vida? Dan Fogelman e A Vida em Si

Luiz Carlos Merten

13 Dezembro 2018 | 09h48

Life Itself – A Vida em Si. Assisti somente ontem ao filme de Dan Fogelman. Espero que permaneça em cartaz a partir desta quinta. Alô-alô, Dib Carneiro, ‘tu tens’ de ver. Para quem estuda roteiro, o filme oferece múltiplas possibilidades de leitura e discussão. Como contar uma história, como estruturá-la? Os três tempos aristotélicos estão sendo cada vez mais polemizados. Sinto que vou me dar mal neste post, porque fui fazer uma pesquisa e encontrei que A Vida em Si deveria se chamar This Is Us, o filme. This Is Us, todo mundo sabe, menos eu – descobri agora -, é uma série escrita por Fogelman. Faz o maior sucesso e, pelo visto, virou referência. Eu, com minha antipatia por séries, estou perdendo. Mas, enfim… ‘O longa conta a história de uma família através de décadas, abusando de momentos emocionantes e tragédias pessoais, mesclados com outras sequências fofas e delicadas. Ou seja, é This is Us.’ Copiei na cara dura, mas está aqui entre aspetas, assumido que essa parte não é minha. Poderia contestá-la, de qualquer maneira. A afirmação poderia valer para o clássico de George Stevens, Giant – Assim Caminha a Humanidade, de 1956, 60 e poucos anos atrás. A Vida em Si começa bem interessante, procurando seu herói. Quem, é, quem é? Duas ou três possibilidades não dão certo, até que ele entra em cena. É um herói trágico, um aspirante a escritor cuja vida é consumida pela tragédia. Elas se sucedem, mortes após mortes, mas o filme é sobre vida. Sobre o narrador confiável. Olivia Wilde, a mulher de Oscar Isaac, o aspirante a escritor, é quem desenvolve a tese, desmontada por seu orientador na faculdade. Embora não se sustente intelectualmente, a tese é real, é o ponto de Fogelman. Existem narradores confiáveis na vida, é a sua interrogação? Para demonstrá-lo, ele divide seu filme em capítulos e recorre a narradores parciais, pouco confiáveis (porque são parte da história), em cada geração, e eles falam diretamente com a plateia. A ‘mensagem’, no limite, talvez seja banal. O amor, sempre, mas não era François Truffaut que dizia que não havia outro tema? A narrativa se desenvolve em Nova York, no interior da Espanha. Vai e vem no tempo. Une os desgarrados, os distantes, os solitários, os que sofrem. Uma mãe que está morrendo diz ao filho que não chore, porque ele é a melhor obra dela e a vida, itself, vai se encarregar de conduzi-lo por seus caminhos. Um exemplo disso é como ele encontra o amor de sua vida, unindo outro fio perdido da trama. Dan Fogelman tem sido aclamado como roteirista. Também dirige. Quem for procurar defeitos em seu filme não terá dificuldade para encontrá-los, mas Fogelman, como Roberto Rossellini, poderia dizer que a vida, em si, é imperfeita e não faz muito sentido cobrar perfeição da arte, porque a retrata. Gostei muito de ter visto A Vida em Si. Gostei do filme, que me deixou com 1001 interrogações e uma vontade imensa de conversar, sobre arte e vida. Por exemplo – o que significa aquela tomada quando Oscar Isaac e Olivia Wilde saem da casa dos pais dele e o ângulo é de cima, o de Mandy Patinkin que os vê afastar-se. Gostei, muito, de Antonio Banderas. A nobreza do mau-caráter, do fdp. O cinema, nunca vou me cansar de dizer, é uma coisa maravilhosa. O cinema, ou os filmes? Certos filmes?