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Eu queria mudar…

Luiz Carlos Merten

27 de fevereiro de 2016 | 09h54

Cheguei ontem, tinha o programa da rádio, matérias do Oscar e à noite fomos jantar (no Obá) para comemorar os aniversários da Lúcia e do Dib, ambos de fevereiro, 23 e 21. Meu amigo já me planejou outra viagem, na Páscoa. Durante minha ausência, Gabriel Villela e ele teceram os planos de irmos ao Peru, a Machu Pichu, aonde já estive no começo dos anos 1970, com a Dóris, minha ex. Doris e eu viajamos durante um mês pelo Peru e pela Bolívia. Fomos a Tiawanaku, à impressionante Porta do Sol, ao Lago Titicaca, às capitais, claro, Lima e La Paz, e a Cuzco e Machu Pichu. Sempre sonhei em voltar ao território sagrado dos incas, mas me pergunto se, aos 70, terei fôlego (naquela altitude) e a mente aberta que me produziram tanto encantamento aos 25. Enfim… Estou pretty excited, como dizem os gringos. Mas, como disse no post anterior, estava louco para voltar de Paris e fazer a matéria sobre a estreia de A Vizinhança do Tigre. Affonso Uchoa vai ficar decepcionado. A matéria, que deveria sair no Caderno 2 de hoje, ficou para segunda-feira. Conversamos pelo telefone, ele estava em Minas, hoje segue para o Rio, para um debate sobre o filme. Na quarta, 2, haverá um debate aqui, na Sala Olido, e o Affonso e o Adhemar Oliveira ainda acertam outro debate no Frei Caneca. É um filme bom de debater, que exige essa conversa com o público após a projeção. A Vizinhança venceu duplamente a Mostra Aurora, a mais importante vitrine do cinema autoral e independente do País, em 2014. Ganhou o prêmio da crítica – o troféu Barroco – e do júri jovem. Foi a última vez que a novíssima geração de críticos (ou aspirantes a) premiou a Aurora. Hoje, o júri jovem premia a Mostra Foco. Só para lembrar – também concorria, naquele ano, Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, que depois venceu Brasília. Grandes filmes, viscerais, das quebradas, mas eu ainda prefiro A Vizinhança – o ‘tigre’ é a natureza selvagem, a interioridade convulsiva, que os jovens de Affonso têm de domar, para não ser consumidos por ela. Ele me contou (de novo) como nasceu em São Paulo, mas se criou na periferia de Contagem, interior de Minas. Ao contrário dos brôs, que lá ficaram, Affonso saiu para o mundo. Estudou, começou a sonhar com o cinema. Voltou a Contagem para filmar os camaradas. Foram quatro anos de gravações e um de montagem. Cinco anos! Houve um casamento, uma morte – e foi essa morte, a do Eldo, que tornou o desejo do filme mais visceral. No imaginário de Affonso, fazer o filme virou necessidade vital. Era preciso dar o testemunho, não da morte do amigo, mas da sua passagem pelo mundo. E Affonso me contou como uma cena prevista para estar lá no meio foi reposicionada e virou o desfecho. O grupo todo, rolando o skate para a câmera, revelando o mundo – Contagem. Poderia ser o Capão, a Rocinha, o Morro da Cruz (em Porto Alegre), Ceilândia. É o Brasil. De fundo, o rap. Eu queria mudar. Mais que isso – eu sei que é preciso mudar. Para mim, é uma cena que já nasceu clássica. Um dos meus momentos preferidos na história do cinema brasileiro, não só do cinema brasileiro recente. Fiquem com o Satie de Limite. Eu entendo (não digo que aceito) a burguesia e seus mitos. Pessoalmente, quero a convulsão do Tigre. Se isso ajudar a despertar a curiosidade de vocês, bem, é o objetivo do post. Já estarei feliz.,