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Estranheza

Luiz Carlos Merten

01 de novembro de 2013 | 01h33

Completaram-se ontem 20 anos da morte de Federico Fellini. 20 anos! Confesso que tenho um sentimento ambivalente sobre ele. Gosto muito de Oito e Meio e A Doce Vida, admiro muitos de seus filmes nos anos 1950, quando Michelangelo Antonioni e ele substituíram o velho neo-realismo pelo realismo interior. O restante de Fellini já não me empolga tanto. Gosto pontualmente de Fellini Satyricon, Fellini Roma, Amarcord e E La Nave Va. Não gosto nada de Ginger e Fred e A Voz da Lua, sendo que esse último me parece ruim, tout court. Mais curioso que chamar-se Federico foi o fato de Fellini ter virado gênero, incorporando o próprio nome ao título de seus filmes. Mas, como todo mundo, posso citar cenas emblemáticas de seus filmes – e elas me marcaram, quase sempre associadas à trilha de Nino Rota. Num dia tão especial, fui ver ontem Que Estranho Chamar-se Federico, no encerramento da Mostra, cheio de expectativa. Ettore Scola é um diretor bacana, com filmes de que gosto bastante – Um Dia Muito Especial, O Baile, Casanova e a Revolução e o meu preferido, A Viagem do Capitão Tornado. Tomei um susto. Nunca pensei que pudesse ficar tão constrangido vendo um filme, e por seu diretor. O começo até que é legal, o desfecho é lindo, com aquela montagem de grandes cenas de Fellini, mas o miolo… Não quero mais polemizar com a ‘crítica’, e por isso nem fui ao jantar da Mostra. Tem tanta gente entusiasmada com o filme de Scola. Acho que, a despeito de todos os problemas de ritmo e falta de humor – as cenas da Marco Aurélio são intermináveis -, o furo é mais embaixo. Scola já havia anunciado sua aposentadoria. Me pergunto se não ficou gagá, porque no conceito do filme ele se equipara ao ‘amigo’ Federico, coloca no mesmo nível a utilização que ambos fazem de Marcello Mastroianni e aí não dá. Nem com banda de música. Tirando esses acidentes de percurso – os filmes de abertura e encerramento -, foi uma bela Mostra, muito boa, com uma parte de resgate histórico (as retrospectivas e apresentações especiais) muito forte e uma seleção alternativa e independente que agradaria ao próprio Leon (Cakoff). E eu achei curioso que a crítica e o júri tenham invertido seus prêmios de ficção – Lições de Harmonia foi o melhor para o júri e La Jaula de Oro ganhou menção especial, enquanto La Jaula foi o melhor para a crítica e Lições ficou com a menção especial. Por mais que goste do filme do espanhol, naturalizado mexicano, Diego Quemada-Diez, tendo a concordar com o júri, mas de qualquer maneira as escolhas de ambos se reduziram ao universo dos primeiros filmes e me pareceu um reducionismo em relação ao tamanho da Mostra. Até por isso, porque a Mostra é maior que só os primeiros filmes, gostaria de ter premiado o Jia Zhang-ke ou o episódio de Victor Erice de Centro Histórico. Ambos estão na repescagem e passam no último dia – quinta que vem (à noite), no Cinesesc. É o caso de ver, ou rever.

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