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Estética e política no cinema do Brasil

Luiz Carlos Merten

14 de março de 2019 | 10h02

Grandes diretores, e o maior deles talvez tenha sido Arthur Penn, nos ensinaram que a ‘América’ só consegue resolver seus conflitos por meio da violência. Os EUA são uma grande nação, mas parece que o Brasil da nova era só quer assimilar o que têm de ruim. Todo dia tem sido uma tragédia. A chuva, com o rio de lama que fez o ABC parecer Brumadinho, a ‘solução’ do caso Marielle, envolvendo o vizinho do presidente, a chacina na escola em Susano. Já estamos nos habituando a conviver com o horror, o que torna tudo mais horrível. Estreia hoje- quinta, 14 – o novo Jean-Luc Godard, Le Livre d’Image, que no Brasil ficou sendo Imagem e Palavra. Será um dos meus melhores do ano, com certeza. Também estreia o novo Cristiano Burlan, Elegia de UM Crime, que usa o assassinato da mãe dele para discutir o feminicídio, certo, mas também e principalmente para outro tipo de reflexão, não sei se posso dizer mais transcendental e profunda, mas ‘artística’, sem sombra de dúvida. Falei com Cristiano sobre o peso dessa família cujos demônios ele é forçado a carregar – mãe e irmão assassinados, outro irmão preso. Elegia de Um Crime me doeu menos pela pobreza, que conheço, mas por essa ideia de um mundo em ruínas no qual a mãe plantou um jardim. Esse jardim me atordoou, da mesma forma que persegue Cristiano essa última imagem sem foco da mãe, que ele tenta recuperar. O tema do filme não é o feminicídio, mas a reconstrução e recuperação da figura da mãe, essa mulher que todos dizem que foi tão linda, mas cuja beleza foi um carma. Cristiano é f… Quando o encontro, ele sempre lembra um texto meu no Caderno 2, quando Mataram Meu Irmão passou no É Tudo Verdade. O filho do banqueiro e o filho do pedreiro. Juntei as memórias dos dois. João Moreira Salles, com Santiago, e o Cristiano. O cinema me leva a territórios… Que adjetivo ou substantivo empregar? Territórios distantes, galáxias infinitas, mas também espaços internos, territórios da mente. Também estreia nesta quinta Pastor Cláudio, de Beth Formaggini. O assassino da ditadura, delegado CLáudio Guerra, hoje pastor religioso, conversa abertamente sobre seus crimes com o psicólogo Eduardo Passos, ativista de direitos humanos e especialista em pacientes que tenham sofrido violência do Estado. A entrevista foi filmada em 2015, com quatro câmeras. Quatro horas de diálogo cerrado e alguns intensos silêncios. Diante de um painel com fotos de ex-presos políticos, Cláudio diz que executou esse, incinerou aquele. A frieza com que admite – confessa – seus crimes levanta o véu sobre um aspecto particularmente cruel da ditadura. Cláudio diz que era um soldado, cumpria ordens e dessa forma parece imune à própria barbárie. (O tema de Godard – o embate entre barbárie e civilização.) O diálogo que dr. Eduardo mantém sob controle – nenhum dos dois eleva o tom de voz – revela aquilo que Hannah Arendt chamava de banalidade do mal. Nesse sentido, Pastor Cláudio dialoga com O Silêncio dos Outros, que também discute os crimes da ditadura espanhola e os efeitos de uma Lei da Anistia cuja interpretação impediu a criminalização de atos contra a humanidade. Tudo isso é terrível, mas Pastor Cláudio vai além ao levantar a existência de uma tal irmandade que segue ativa. Teorias da conspiração. Os mesmos setores empresariais que financiaram o golpe militar e o terror estão agindo impunemente nas sombras. Financiaram o golpe? São filmes que é preciso ver. Atualizam a discussão sobre estética e política no cinema do Brasil.

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