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Esses italianos

Luiz Carlos Merten

23 de fevereiro de 2015 | 10h18

Iniciei este post ontem na redação do Estado, mas na correria do Oscar não deu para seguir adiante. Estava desanimado, mas o discurso de Patricia Arquette (e o memê de Meryl Streep), mais a recriação de The Sound of Music por Lady Gaga (e o encontro dela com Julie Andrews) e o outro agradecimento, dos compositores de Glory, tema de Selma, foram me animando. Vou voltar ao meu post. O título evoca um filme – uma comédia em episódios – de Nanni Loy, que ganhou o mundo com título em inglês, Made in Italy. A Cult Classic está lançando dois filmes italianos de exceção – Desejo Que Atormenta/Senilità, que Mauro Bolognini adaptou de Italo Svevo, e Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República, de Damiano Damiani. Carlão Reichenbach gostava demais do segundo. Confissões filia-se à tendência do drama político que irrompeu no cinema italiano na segunda metade dos anos 1960. É contemporâneo de Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, de Elio Petri. Chegaram juntos às telas, em 1970/71, com poucos meses de diferença, o que pode dar a impressão de que Damiani entrou na onda de Petri. Nunca – Damiano Damiani já fazia cinema político desde seu spaghetti western Gringo/Quien Sabe?, de 1966. Dois anos depois, no mítico 68, ratificou a vocação com O Dia da Coruja, boa adaptação de Leonardo Sciascia que foi seu primeiro filme com Franco Nero (e Claudia Cardinale). Um grande autor de esquerda era quem assinava o roteiro – Ugo Pirro. Investigação  ganhou o Oscar de filme estrangeiro. Seu tema é o mesmo de Damiani. Ambos fazem a crítica do poder. Gian-Maria Volontè encarna a esquizofrenia do poder na Investigação. Mata a amante, Florinda Bolkan, só para provar que ficará impune. Consumado o crime, aciona um pobre diabo, Salvo Randone, exortando-o a ir à polícia, para denunciá-lo. Randone vai e quem o recebe? A autoridade, Volontè. Damiani arma uma narrativa em flash-backs, cheia de idas e voltas no tempo que, se lembra alguma coisa, é o Francesco Rosi de O Bandido Giuliano. Martin Balsam é o investigador de polícia que tenta prender mafioso que controla o mercado imobiliário da cidade (outra possível analogia com Rosi – Le Mani sulla Città). Balsam não quer incriminar o cara só pelo que ele faz hoje, mas por um crime do passado, quando matou um sindicalista pavimentando seu caminho para o poder. O investigador leva o caso ao jovem procurador da República, Franco Nero, que invoca questões de direito para paralisar a ação. Balsam parte para a Justiça acima ou à margem da lei, a situação complica-se e o magistrado, consciente de que fez m…, leva o caso adiante, mas tromba, nas escadarias do tribunal, com outro juiz inoperante como ele foi, mas o caso desse é mais grave, porque Nero agiu por idealismo e esse outro procurador, por corrupção. Nero e Damiani já tinham feito Il Giorno della Civetta. Depois de Confissões emplacaram na sequência Só Resta Esquecer, sobre o sistema penitenciário italiano, e Perché si Uccide Um Magistrato, que meio prossegue com a discussão poder de Confissões. Por irregular que tenha sido a trajetória de Damiano Damiani, sempre o estimei – e gostei muito de Gringo e Confissões -, mas, no começo dos anos 1970, não era de bom tom elogiar os filmes dele, nem os de Costa-Gavras e Elio Petri. Eram diretores considerados reformistas num mundo que sonhava ser revolucionário. Criticavam o abuso do poder, não o poder em si. Será? O post está enorme. Deixo o Bolognini para depois.

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