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Esses italianos (2)

Luiz Carlos Merten

26 de fevereiro de 2015 | 10h11

Nem eu ouso tanto, com toda minha vocação de Santo Expedito, o crítico das causas impossíveis. Já me referi várias vezes à santíssima trindade do cinema italiano e aos filmes faróis que Michelangelo Antonioni, Federico Fellini e Luchino Visconti fizeram no emblemático ano de 1960 -A Aventura, A Doce Vida e Rocco e Seus Irmãos. Peter Bondanella, em A History of Italian Cinema, da Bloomsbury – um livro tão visceral quanto o Otto Preminger de Chris Fujiwara ou o Roberto Rossellini de Tag Gallagher -, cita os mesmos três nomes, mas vai além. Só o preconceito da crítica impediu, afirma ele, que um quarto grande obtivesse o mesmo reconhecimento. O quarto mosqueteiro. Em 1960, Mario Bava já possuía a fama de grande fotógrafo, tendo trabalhado com Riccardo Freda, entre outros autores – autores! – de um cinema mais popular. Freda, muitas vezes sob o pseudônimo de Robert Hampton, foi dos primeiros a incursionar pelo terror à italiana, mas Bava obteve maior reconhecimento com um filme que, naquele mesmo ano, ganhou o mundo. É conhecido sob diversos títulos – Black Sunday, The Mask of Satan, Revenge of the Vampire. No Brasil foi lançado como A Máscara do Demônio, não sendo o menor de seus méritos o de haver elevado Barbara Steele ao status de ‘scream queen’. O filme possui um prólogo e, no século 17 – ou 18 -, Barbara e o irmão incestuoso são condenados à morte pelo inquisidor, que também é irmão deles. Barbara é uma vampira, uma bruxa? Não importa. O que conta é que antes da fogueira passam por um suplício horrível, com uma máscara colada ao rosto dos dois – a máscara do Diabo. Ela possui a faculdade de mudar de cor e intensidade com o fogo, e Bava, ao mesmo tempo que a filma de fora, filma de dentro, para que o espectador compartilhe a angústia do casal de irmãos. A provocação de Bondanella – só o fato de haver trabalhado com gêneros populares (épicos mitológicos, thrillers, horror), explica, mas não justifica, que os críticos da época, tão ciosos das grande arte do cinema, tenham resistido a colocar Mario Bava no panteão que ele merece (e ocupa hoje). Em termos puramente estilísticos, Bava é tão grande quanto qualquer integrante da ‘trindade’, sustenta Bondanella. E ele elogia não apenas a cor, a cenografia, o clima asfixiante. Vai também à complexidade dos temas, que dão tratamento mais intemporal (metafísico?) às questões existenciais e sociais que Antonioni, Fellini e Visconti encaravam em seus clássicos. Por que estou desencavando Mario Bava? Porque a Versátil está lançando o volume 2 das suas Obras-Primas do Terror (italiano), com filmes de Bava (2), Dario Argento, George A. Romero, Lucio Fulci e Michele Soavi. Os filmes de Bava são O Ciclo do Pavor/Operazione Paura, de 1966, e Lisa e o Terror/Lisa e il Diavolo, de 1973. O Argento é A Mansão do Inferno/Inferno, de 1980, segunda parte da trilogia das três mães que começou com Suspiria, acho que de 1977. Confesso que não sou muito fã do Romero – desse Romero, Martin, de 1976 – nem do Lucio Fulci, Terror nas Trevas, de 1981. Mas imagino que a grande descoberta do volume 2 será Michele Soavi, com o horror tardio de Dellamorte, Dellamorte, rebatizado como Pelo Amor e Pela Morte, de 1993. Soavi é cria de Argento e trabalhou com Bava, Fulci e Terry Gilliam. Criou a derradeira obra-prima do spaghetti nightmare, baseado no comic de Tiziano Sclavi, Dylan Dog. Sclavi baseou-se no ator Rupert Everett para dar forma física a seu personagem e Soavi buscou o próprio Everett para ser o guardião de seu cemitério maldito, o chamado Dellamorte. Graças a um sortilégio/maldição, os mortos, mal são enterrados, ressuscitam e Dellamorte, que os chama de ‘returners’ (os que voltam), os despacha de novo para o inferno. Dellamorte apaixona-se por ‘ela’ – a personagem não tem nome -, enlouquece, perde seus parâmetros e daqui a pouco está matando todo mundo, até a amada e os ‘vivos’, para ocultar seus crimes. Soavi cria um pesadelo que tanto pode ser real como coisa sonhada, remetendo a um passado que nem sabemos se existiu. Melhor que isso só o Bava, com seu universo barroco e refinado trabalho de iluminação, tanto mais refinado porque os filmes eram feitos a troco de nada. O Ciclo do Pavor é sobre médico (Kim Rossi Stuart!) que é enviado a pequena cidade para fazer autópsia nas pessoas que estão sendo assassinadas. No passado, a filha de uma aristocrata agora louca foi morta e agora volta para se vingar. Na cena chave, Kim, o dr. Paul, persegue o fantasma e entra em sucessivos quartos que parecem compartimentos da mente até chegar a… Vejam, não vou tirar a graça. A representação da menina com a bola foi retomada como o conceito das morte no episódio de Fellini para Histórias Extraordinárias e, se vocês acham exagerado dizer que o grande diretor bebeu na fonte de Bava, e não o contrário, basta lembrar que Fellini incorporou a vampiresca Barbara Steele em Oito e Meio depois que Bava já criara o mito da atriz. Lisa e o Diabo é ainda mais louco. Elke Sommer faz uma turista em Toledo que descobre uma casa tão atraente quanto bizarra, e na qual o mordomo pode ser o próprio capeta. O mordomo de Império não dá nem para a saída. Telly Savalas é sinistro, muito mais que nosso eterno Corisco (Othon Bastos), e o filme carrega no sexo, com o motorista Gabriele Tinti, ex de Norma Bengell, dando duro fora do volante. Além da alemã Elke, que chegou a ser popular em Hollywood por volta de 1960, o filme tem famosas estrelas italianas – Sylva Koscina, da antiga Iugoslávia, e a viscontiana Alida Valli, todas disputando o rodo (entendem o que quero dizer?). Já que comecei citando Peter Bondanella, encerro com ele. Do que se sabe do projeto de Fellini para A Viagem de G. Mastorna, Bondanella ousa dizer que Federico estava tomando a vida após a morte de Bava em Lisa e o Diabo como referência. Não seria a primeira vez que Federico, do alto de seu gênio, se apropriava do autor ‘menor’.

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