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Esse mundo é de quem ? Dos loucos

Luiz Carlos Merten

20 de outubro de 2014 | 00h26

De volta a São Paulo, e nem tive tempo de reentrar no clima da Mostra. Tinha matérias para a edição de amanhã do Caderno 2, fui jantar, mas a verdade é que, numa vista d’olhos, não vi nada que me apaixonasse. Nem tive tempo de comentar. Achei a vinheta da Mostra deste ano bem ruinzinha, menos pela animação em si do que pelo desenho/ilustração de Pedro Almodóvar. O cabra realmente devia estar no piloto automático quando enviou aquelas flores sem graça. Na quinta, antes de ir para BH, tive tempo de ver dois filmes. OK, eu não perco oportunidade de falar da concorrência, isso é, da malfadada Folha. Queria vomitar vendo o novo institucional deles, a defesa da pluralidade. Me engana que eu gosto. Chico Sá, em, sua nova casa, deve estar adorando a publicidade. Até o ombudsman, pelo que soube – não li -, falou mal da conduta do jornal, que impediu o cara de manifestar apoio a Dilma. Essa coisa de liberdade de expressão tem limite, claro. E, afinal, o jornal que até hoje não respondeu à acusação de que emprestava carros à ditadura militar. Não sei o que é pior. Um acadêmico sem vergonha na cara escreveu que, se isso ocorreu, foi sem que a cúpula do jornal soubesse. Mas que raio de jornal é esse que não sabe o qw2ue ocorre no seu quintal? Como espera que acreditemos que saiba o que ocorre globalmente? Se o micro não funciona, como acreditar no macro? Enfim, adorei saber que o público tem rido, quando não vaiado, o comercial da concorrência. Como é mesmo o grito de guerra das torcidas? Chupa! He-he. Voltei da Mostra CineBH e, ao chegar em casa, me esperava o novo pacote da Versátil. O DVD e o Blu-ray de Harakiri e o DVD de Esse Mundo É dos Loucos. Sei que tem gente que vai dizer que Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi ou Yasjuro Ozu são as figuras icônicas que dominam o cinema japonês. Não para mim. Gosto de todos eles., mas o maior é Masaki Kobayashi, com sua trilogia Guerra e Humanidade, também conhecida como A Condição Humana, e depois Harakiri e Rebelião. O último, com o embate entre os personagens de Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai, é simplesmente o melhor filme japonês de todos os tempos. Harakiri é quase tão bom. Uma denúncia do código de honra dos samurais. Numa época em quie os samurais estão decadentes, desempregados, Tatsuya Nakadai pede licença para usar o pátio interno de um suserano para cometer o suicídio ritual. Na verdade, ele está ali para vingar o filho, que foi forçado a cometer um suicídio desonroso. Grande Kobayashi. E Nakadai! Saltei de um êxtase a outro. Philippe De Broca fez a passagem do cinema francês de regras fixas para a nouvelle vague. Foi assistente de Henri Décoin, Claude Chabrol, François Truffaut. Foi o comediógrafo da nova onda. Brincando de Amor, O Farsante, O Amante de Cinco Dias, todos com Jean-Pierre Cassel. No último,. Jean Seberg, casada com François Périer, tem  um amante, Cassel. O filho ou a filha, não lembro bem, pergunta a papai – onde está mamãe? Périer responde – mamãe está demorando porque é difícil caminhar de salto alto. Percebem a implicação, a sutileza? Mudando o tom, De Broca fez lima série de comédias de aventuras com Jean-Paul Belmondo – Cartouche, O Homem do Rio, As Fabulosas Aventuras de Um Playboy e O Magnífico. E, então, em 1966/67, surgiu Le Roi du Coeur, o Rei de Copas, lançado no Brasil como Esse Mundo É dos Loucos. Não sei em São Paulo, porque naquela época vivia em Porto Alegre, mas Esse Mundo É dos Loucos virou cult. Ficou um tempão em cartaz. Em plena 1.ª Guerra, soldado inglês chega a cidadezinha francesa que foi abandonada pelos habitantes. Diante das iminente ofensiva dos alemães,. eles soltam os animais do zoológico e os loucos, que transformam Bates em seu rei. Tenho até medo de (re)ver Esse Mundo É dos Loucos. O filme é tão bom quanto parece no meu imaginário? De Broca antecipou-se a Milos Forman. O rei de Copas antecipa de quase dez anos Um Estranho no Ninho e  o elenco, além de Bates, tem Geneviève Bujold, Jean-Claude Brialy, Micheline Presle, Adolfo Celi. Um dia, será preciso fazer justiça a Philippe De Broca. O Amante de Cinco Dias é uma obra-prima, ou quase. E Esse Mundo É dos Loucos? Veja, mas saiba que não há negociação. Para começar a conversar sobre o filme o lance mínimo é ‘ótimo’. Como resistir a uma louquinha como Geneviève Bujold, que se chama Coquelicot? O termo refere-se a uma cor, uma tonalidade de vermelho. Deu origem a um famoso quadro de (Clau8dxe) Monet.

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