As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Erotismo e violência: a redescoberta de ‘Rolling Thunder’

Luiz Carlos Merten

22 de setembro de 2015 | 23h52

Passei ontem pela banca do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, e comprei as revistas francesas de cinema do mês, ou melhor, de dois meses atrás, porque aqui elas chegam atrasadas. Cahiers, Première, Studio. Cahiers chama na capa o erotismo (encore!) L’érotisme retrouvé, o erotismo reencontrado – White Bird, Inherent Vice, Ninfomaníaca, The Smell of Us, La Chambre Blue. A revista é fogo, e talvez, no limite, não seja séria. Cai matando em Gaspar Noë – Love, claro – e se masturba por Larry Clark, aquele gigolô de adolescentes. The Smell of Us está no Festival Indie, que ainda rola. Vi em Paris, não sei mais se na volta de Berlim, ou de Cannes, e fiquei chocado. Como um filme daqueles, de um diretor (autor?) daqueles, pode ser colocado no sétimo céu? Não tenho nenhuma procuração para defender Gaspar Noë nem quero, mas Cahiers desdenha do seu uso do 3-D. De minha parte acho que nasceram um para o outro, Noë e a terceira dimensão. A revista cobra a ausência de orgasmo feminino no filme (vou ter de rever, achei que tinha), mas a cama, valha-me Deus, não me parece o lugar por excelência da correção política – as coisas que as torcidas organizadas do Mengo, do Coríntia e eu já fizemos, até o Diabo duvida. E acho interessante que um homem assuma a questão da sexualidade masculina, que uma mulher, a diretora de 50 Tons de Cinza, transformou em doença do corpo e da mente, seguindo a trilha do Alfred Hitchcock de Marnie. O bilionário de 50 Tons é a versão masculina de Tippi Hedren, muito perturbador, gosto do filme dela por isso. Olhei en passant as numerosas páginas que Cahiers dedica ao erotismo. Achei meio tediosas. Interessei-me mais por uma página do Videoclub em Studio Live. Pour quoi (re)découvrir Rolling Thunder? Por que (re)descobrir O Outro Lado da Violência? É curioso que ontem passou na TV paga O Franco-Atirador, de Michael Cimino. Foi meu destaque de TV no Caderno 2. O longa ganhou os Oscars de filme e direção de 1978, mais três prêmios, incluindo melhor coadjuvante para Christopher Walken. Quando Cimino fez o filme dele, a Guerra do Vietnã já produzira, na América, o estrago que todo o mundo sabe. Servida no jantar, através do noticiário de televisão, a guerra foi praticamente ocultada por Hollywood. Em 1978, enfim, o assunto chegou à tela grande e a Academia premiou Cimino e Hal Ashby – também foi o ano de Amargo Regresso, que deu a Jane Fonda e Jon Voight os Oscars de ator e atriz. No ano seguinte, foi a vez de Francis Ford Coppola ganhar a Palma de Ouro com Apocalypse Now. Até hoje não sei se é um grande filme ou só um filme grande, porque fui muito influenciado pelo que, sobre Apocalypse Now, escreveu Elaine Showalter. A megalomania de Coppola, a cidade artificial criada nas Filipinas para abrigar a produção, os rios de drogas, as redes de prostituição de meninos e meninas para ‘servir’ a equipe técnica e artística – olhem que não me considero moralista, mas quando penso nessas coisas, e leio o relato de Elaine, atribuo sempre outro significado às palavras no desfecho do filme – ‘O horror, o horror.’ A própria mulher de Francis Ford, Eleanor Coppola, fez um filme, um documentário, para refletir sobre tudo isso – O Apocalipse de Um Cineasta. Em 1982, Ted Kotcheff, grande diretor canadense que fizera na Austrália o poderoso Pelos Caminhos do Inferno, sobre a matança de cangurus, pegou Sylvester Stallone, que se transformara no emblema da era Jimmy Carter com Rocky Um Lutador, e fez dele Rambo em Programado para Matar. Um veterano dp Vietnã entra em choque com o xerife numa pequena cidade norte-americana e utiliza as técnicas de sobrevivência que aprendeu no Sudeste Asiático para destruir o xerife (e a cidadezinha). Ocorreu o improvável. Rambo nasceu para criticar a ‘América’, mas Stallone foi cooptado pelo sistema e virou garoto-propaganda da era Ronald Reagan. Em Rambo 2 – A Missão, de George Pan Cosmatos, o personagem, de volta ao Vietnã, chegou a vencer na ficção, a guerra que os EUA haviam perdido na realidade. Pois foi antes de tudo isso, em 1977, que John Flynn fez Rolling Thunder. Flynn havia sido assistente de Robert Wise. Com roteiro de Paul Schrader, contou a história de um veterano (William Devane) que volta tão traumatizado do Vietnã que se refugia no mutismo. Sua casa é invadida por um bando selvagem, a mulher é estuprada e morta e os ‘bandidos’ ainda arrancam a mão do herói. Ele põe um gancho no lugar da mão, convoca o amigo Tommy Lee Jones e juntos promovem um banho de sangue. Schrader, parceiro de Martin Scorsese e calvinista de carteirinha, sentiu-se traído e renegou seu roteiro. Esperava, de certo, a condescendência de Cimino. O importante é que Don Siegel, William Friedkin e Sam Peckinpah amaram o filme e assumiram sua defesa. Depois deles, um certo Quentin Tarantino gostou tanto de Rolling Thunder que deu à sua produtora o nome do filme. Rolling Thunder acaba de ser lançado em Blu-ray na Europa e nos EUA. Está sendo saudado como a obra-prima que sempre foi. Na época, estava fora da imprensa cultural, mas cheguei a escrever um texto entusiástico sobre A Outra Face da Violêrncia (o título brasileiro). Achava melhor que o ‘oficial’ O Franco-Atirador. Hoje, é o mundo que reconhece isso. Gostaria muito que o filme fosse resgatado também no Brasil. Não por mim, mas por John Flynn. Sua obra é mais interessante que parece. Na Solidão do Desejo, seu primeiro longa, já abordava um tema polêmico – a homossexualidade entre militares. E sua obra-prima nem é Rolling Thunder, apesar do entusiasmo de Tarantino, mas A Quadrilha/The Outfit, de 1973, um thriller intensíssimo com Robert Duvall, Karen Black, Joe Dan Baker e Robert Ryan. Procurem na internet que o filme deve estar disponível. Vai valer a pena.