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Era Domicílio Conjugal!

Luiz Carlos Merten

09 de julho de 2017 | 10h14

E, afinal, errei. Corri ontem ao Belas Artes para ver, às 18h30, Jules e Jim, mas o filme passa hoje e tudo o que escrevi continua valendo, exceto que dificilmente conseguirei revê-lo. Tenho matérias para a edição de amanhã do Caderno 2 e, por mais rápido que seja, não creio que consiga terminar a tempo. Teria de sair do Limão antes das 6. Mas queria rever Domicílio Conjugal, e o fiz – era o programa de ontem. Fiquei tão desconcertado com o filme, que é de um frescor tão ultrapassado, ou tentativa de frescor ultrapassada, que fui procurar meus livros sobre François Truffaut. Queria, especificamente, o Finally Truffaut, mas não o encontrei nas pilhas de livros que se espalham pela minha casa. Mas encontrei um volume lançado no Brasil, O Cinema Segundo François Truffaut, coletânea de textos reunidos por Anne Gillain. Abri ao azar e topei com um ataque dele a John Huston, a quem chama de mistificador, e por aí vai. François, François! Lembrei-me de Eduardo Coutinho. Quando lhe perguntava de determinados filmes e diretores brasileiros, ele me olhava e ria – ‘Você nunca vai me fazer falar mal do cinema brasileiro.’ E ele acrescentava que a gente ‘tem de ter uma ética’. Truffaut nunca teve esses pruridos, mas você pode dizer que ele era crítico etc e tal. Mesmo quando crítico, Truffaut já tinha sua agenda para virar diretor e fazia parte desqualificar o chamado cinema de qualidade para que a nouvelle vague, e ele incluído, se apresentassem como a novidade salvadora do cinema francês por volta de 1960. Não sei até que ponto ele acreditava nisso ou se havia desonestidade intelectual. Enfim, lembrei-me também de Josias Teófilo falando mal de Gabriel Mascaro, muitíssimo melhor cineasta que ele, no debate sobre O Jardim das Aflições no Recife. Aaaaiiii… Adiante – comprei ontem a Empire – com Guardiões da Galáxia na capa – e tem lá Empire masterpiece, duas páginas dedicadas a… Jules e Jim! E o autor do texto, Ian Freer, conta, o que não sabia, que é o filme preferido de Stephen Hawkings. Dos de Truffaut, também é um dos meus, com O Garoto Selvagem, mas não creio que goste mais de que dos Huston(s) do meu coração, e que não são os primeiros, que lhe deram fama (Relíquia Macabra, O Tesouro de Sierra Madre, Uma Aventura na África etc), mas estão mais para o final de carreira – Os Pecados de Todos Nós, Cidade das Ilusões, O Homem Que Queria Ser Rei, Os Vivos e os Mortos. O curioso é que Truffaut falava tão mal de Huston e existe uma afinidade evidente entre seu O Quarto Verde e a adaptação de James Joyce pelo grande John – maior depois da descoberta da psicanálise em Freud, Além da Alma. No livro de Anne Gillain, há um capítulo com entrevista dedicado a Domicílio Conjugal. Truffaut fala mal de Jean-Luc Godard (alguma surpresa?), diz que a acusação de ‘cineasta burguês’ lhe é indiferente e promete que será o último exemplar da saga de Antoine Doinel, mas não foi, porque ele fez depois O Amor em Fuga e sabe-se lá se não teria voltado ao personagem, não fosse a morte prematura (em 1984, aos 52 anos). Mesmo não tendo gostado de Domicílio Conjugal, achei interessante rever e também quando Truffaut conta, na entrevista, que suas referências para esse filme foram Jean Renoir (o pátio de O Crime de M. Lange, e tem o personagem do ‘estrangulador’) e a comédia hollywoodiana (Ernst Lubitsch e Leo McCarey). Gostei de Claude Jade mais que de Jean-Pierre Léaud, cujos cacoetes me pareceram bobos, e não pude reprimir o pensamento de que, se Antoine Doinel saísse da tela para o mundo real, seria insuportável. O mala do ano. Estou falando do personagem, não do ator, genial como o Luís XIV de Albert Serra. Enfim, se der verei o Jules e Jim. E quero rever O Último Metrô, só preciso ficar atento para não me enganar na data.