As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Entre o paraiso e a terra prometida, a religiaoh

Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2013 | 17h59

BERLIM – Dos quatro filmes que vi ateh agora, cinco com o do Kar-wai, tres sao da competicao. Espero que melhore, porque tem sido jogo duro. Da Austria veio Hope, que integra a trilogia Paradise, de Ulrich Seidl. Esses austriacos exageram na misantropia, mas o Michael Haneke, pelo menos, filma melhor. Nao, nao estou sendo sincero comigo. Nao acho que filme tao melhor assim. Embora sua trilogia evoque o paraiso, os filmes de Ulrich Seidl retratam o inferno do mundo atual. Uma mae deposita a filha num resort que aplica dietas em criancas e adolescentes obesos. A mae foi pra Africa, outra gordinha, se esbaldar com os nativos – eh outro filme da malfadada trilogia. Nao posso dizer que gostei, mas alguma coisa da crueza de Seidl – a garota comeca a dar em cima de um homem mais velho – me fez pensar que hah um sentido naquele horror todo. O instrutor da garotada soh fala em disciplina e a repressao eh a arma do sistema para manter as coisas em ordem, quando as pessoas estaoh implodindo. O que veio depois foi pior, embora o filme polones, de uma tal Maldoska nao sei das quantas, tenha cenas bonitas. Chama-se In the Name of. Em nome do que? De Deus, do amor? Um padre numa comunidade interiorana arde de desejo por um abraco, mas de homem. Ele tem um bando de garotos sob sua orientacao. Um tambem arde de desejo por ele. Vao para a cama, finalmente, embora o padre nao seja pedofilo, e o sexo libera o jovem para sua ascese. Nao, ele nao cai na viadagem – o altar eh mais em cima, o sagrado. E ai veio o Gus Van Sant, que tem seu fah-clube, mas voces me desculpem – foi o pior de todos. Van Sant eh meio esquizofrenico, dividindo sua obra em dois tipos de filmes. Elefante, Paranoid Park foram tornando cada vez mais tenues (estilizadas? Desconstruidas?) as narrativas que eu gostava de Drugstore Cowboy e My Own Private Idaho, que continuam sendo meus Van Sants favoritos. A outra vertente, aa qual se filia Promised Land, Terra Prometida, eh a de Genio Indomavel e Milk. Temas importantes, mas um academicismo que me deixa de pedra. Por Genio, voces devem se lembrar de que Matt Damon e Ben Affleck ganharam o Oscar de roteiro. Damon, de novo, escreve e atua, agora em parceria com John Krasinski. O tema eh exploracao do solo e mais violencia contra o meio ambiente, por meio de processos agressivos para extracao de gas de camadas subterraneas. O tema eh importante, sem duvida, mas a narrativa agora eh menos que academica. Convencional. Van Sant fez o filme de qualquer jeito, para ajudar Matt Damon, que ia dirigir, mas desistiu. O proprio Damon faz o representante da companhia que quer explorar o solo. Eh do tipo que tem labia para vender a mae. Entra em choque, claro, com o ecologista bem intencionado, Krasinski. Esse ultimo se chama Noble, Nobre, e eh o tipo de sutileza (ou obviedade) de que o filme eh prodigo. Em Cannes, quando presidiu o juri, Kar-wai premiou no fim um filme que havia passado no primeiro dia – Ventos da Liberdade, de Ken Loach. Van Sant eh sempre premiavel, pela logica dos grandes festivais, mas eu jah descarto. Kar-wai nao vai ser louco de avalizar um filme que a gente jah viu trocentas vezes. A coisa agora soh deve melhorar. Se piorar, vai ser duro.