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Entre idas e vindas, ou teatro e cinema

Luiz Carlos Merten

25 Julho 2016 | 10h00

Tive um fim de semana meio teatro, meio cinema. Fui ver Medida por Medida, que integra o Repertório Shakespeare surgido da associação de Thiago Lacerda com o diretor Ron Daniels. Vi também o Macbeth da dupla e tenho de admitir que Ron não me convence como shakespeariano profissional nem como diretor, ‘tout court’. As peças valem o que conseguem passar do texto do bardo, porque Ron, além do mais, é dado a certas coloquialidades que me parecem despropositadas. Enfim, ri com Medida por Medida e seu ataque à hipocrisia da Justiça, com seus dois pesos e duas medidas, o que, obviamente, remete ao Brasil atual. A plateia morre de rir com o tom chanchadeiro, a ‘recatada e do lar’ rende aplausos em cena aberta. Ainda nem estamos vivendo a ressaca das decisões que terão de ser tomadas – depois da concretização do impeachment e esse governo já virou alvo da chacota popular. No Festival Latino, Alexandre Stockler foi um pouco além com Linha de Fuga. Depois de informar que o filme foi feito sem patrocínio algum, público ou privado, o letreiro lança a palavra de ordem – ‘Ah, sim, e primeiramente, foratemer.’ Foi uma festa na tenda montada no Memorial da América Latina, e faz todo sentido, porque, de cara, o novo ministro das Relações Exteriores – Serra – já deixou claro que é tudo, menos bolivarista. O filme é sobre sexo na internet, o diretor contou como filmou sem que os atores soubessem com quem contracenavam e como foi difícil montar o material. Acredito piamente, defendi o filme anterior do Alexandre, Cama de Gato, gosto de muita gente envolvida nesse, mas tenho de admitir comigo que, embora o sexo não seja explícito, ver uma meia-dúzia de pessoas que compõem o numerosos grupo manipular a genitália foi o que considerei uma experiência de terror. Sorry, mas cinema tem esse componente de fantasia, e o filme é sobre fantasias, um imenso coito interrompido que explode no final com toda aquela gente gozando. Ótimo pra eles, mas eu fiquei no meu coito interrompido, mesmo. Não entrei no clima, não fiquei constrangido. Só tive a impressão de que estava sobrando. Ontem, trabalhei, fiz minha capa de hoje do Caderno 2, sobre a fotografia de cinema de Velho Chico, tinha outros textos. Corri para o Spcine do CCSP e assisti, com Dib Carneiro e Orlando Margarido, no Festival Latino, a Maria Candelária, o ‘clássico’ de Emilio ‘El Indio’ Fernández com Dolores Del Rio e Pedro Armendáriz, fotografia de Gabriel Figueroa. Num certo sentido, é horrível. Ficou datado, parece filme da Vera Cruz rodado em exteriores – o Caiçara mexicano -, a ‘diva’ é afetadíssima, a fotografia ‘telúrica’de Figueroa carrega nos elementos folclóricos para compor o quadro, e dito assim parece que não gostei. Pelo contrário, adorei ter visto Maria Candelária, que é uma tragédia sobre como a filha da p…, literalmente, é hostilizada numa comunidade e como a arte – o pintor que a retrata, hipoteticamente nua, mas ela não posou assim – somente acirra o preconceito. Gostaria muito de ver La Red, o clássico erótico do Índio Fernández com Rossana Podesta, mas infelizmente não integra a retrospectiva. Em contrapartida, quero ver à tarde, no Cinesesc, Irmãs Malditas, de Roberto Gavaldón. Quem sabe, depois eu volto aos mexivcanos ‘tradicionais’, para não dizer clássicos, do festival.