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ETV, Então é isso? (Sobre Cine Marrocos, que cresce na parada)

Luiz Carlos Merten

08 de abril de 2019 | 22h55

No fim do post anterior disse que estava indo a uma cabine do ETV, no MIS. Fui ver Soldado Estrangeiro, de José Joffily e Pedro Rossi, e o documentário segue três brasileiros que se ligam a atividades guerreiras no exterior. Bruno se engaja na Legião Estrangeira, convencido de que assim garantirá um futuro melhor para a filha, que vive sob sua guarda depois que a mãe se entregou às drogas. Ele parte, a menina fica com a avó paterna. Mário integra-se ao Exército de Israel e o filme o segue em pleno treinamento e até combate, no policiamento de territórios dos palestinos. Felipe participou da Guerra do Afeganistão como marine e, sofrendo de estresse pós-traumático, viciou-se em analgésicos. Foi desligado com desonra da Marinha e agora, limpo, tenta melhorar sua ficha, revertendo o motivo do desligamento. Cada uma dessas histórias, e a temporalidade que Joffily e Rossi usam para contá-las (e relacioná-las, o antes, durante e depois do engajamento), dão a medida de homens que sonham e de como esses sonhos podem ser destroçados pela realidade. Felipe é o caso mais radical, e pungente. Perde as raízes, é rejeitado lá fora. Vira, na definição dos talibãs, um death walker. Gostei, e já que estou nessa vibe de falar dos documentários do ETV, quero voltar a Cine Marrocos. Ricardo Calil deve estar pensando que estou louco, ou fiquei gagá. Manifestei reserva à parte mais política, relativa à ocupação urbana (do prédio) em seu filme. Uma pergunta me consumia e só ousei formulá-la hoje para Maria do Rosário Caetano, a quem encontrei no MIS. Não tinha certeza – o xerife da ocupação, que diz que ali dentro não tem drogas nem armas, é o mesmo detido como criminoso no Nordeste? Sim, e agora o filme fez sentido para mim – desculpem pela demora. Naturalmente que aquilo não estava no roteiro e Cine Marrocos foi atropelado pela realidade, como ocorre muitas vezes no documentário. Calil havia alertado sobre o movimento por trás daquela ocupação. Não era o mesmo, à esquerda, de outras. O xerife bandido, que usava a ocupação como fachada para o crime, pedia votos para o PSDB e aparece ao lado de Aécio Neves. A todas essas, os artistas da ocupação encenam nossos filmes preferidos – de Ingmar Bergman, Billy Wilder e Luigi Comencini, entre outros. Noites de Circo, Crepúsculo dos Deuses e Pão, Amor e Fantasia. São usados, enganados, explorados. Dispersam-se, no desfecho, quando há a reintegração de posse do prédio. Mas dois foram à apresentação e falaram bonito, com propriedade, sinceridade. Existe esperança. Talvez o Hotel Cambridge de Eliane Caffé ainda seja melhor, mas Cine Marrocos é muito bom.