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Ensaio sobre o fracasso, e o (re)início do fim

Luiz Carlos Merten

27 de julho de 2019 | 09h41

Fiz ontem minha estreia no Festival Latino deste ano assistindo ao novo Cristiano Burlan, Ensaio Sobre Um Fracasso. O filho do pedreiro (carinho, Cristiano) está cada vez melhor. André Gatti faz um projecionista de cinema pornô. Sempre teve um desejo autoral, a vontade de fazer um filme. Caminha pelo Centro de São Paulo, essas ruas decadentes que me encantam. Com Jean-Claude Bernardet, postam-se em frente ao PlayArte Marabá, um dos meus territórios do cinema em Sampa. Do outro lado da rua está o Ipiranga, fechado. Bernardet lembra as filas para ver Lampião, o Rei do Cangaço, que se estendiam na calçada, o pôster enorme do cangaceiro na fachada. Bernardet viaja nas suas lembranças, e eu viajei nas minhas, quando perfilei Carlos Coimbra para a Coleção Aplauso. Passei umas quantas tardes com Coimbra em seu modesto apartamento num treme-treme da 9 de Julho. O homem responsável por alguns dos maiores sucessos do cinema brasileiro nos anos 1960, o verdadeiro rei do cangaço, vivia ali meio solitário (meio?), nunca descobri se com dificuldade, mas com certeza sem ostentação. Fazer cinema – Gatti quer. Sonha com um produtor que lhe dê a grana. O amigo exorta-o a não esperar. Cristiano Burlan propõe uma colagem de imagens e sons. Fachadas e até interiores de velhas salas. Apogeu e decadência do Centrão. Seguindo uma velha lição de Orson Welles e de seu roteirista, Herman Mankiewicz, dissocia imagem e som, como faziam os autores de Cidadão Kane. Fragmentos inteiros de diálogos de filmes noir. Monólogos de homens na noite das cidades. Homens invariavelmente seduzidos e enganados por belas mulheres – fatais. A voz inconfundível do arauto da nouvelle vague, Jean-Pierre Léaud, por quem duelaram Jean-Luc Godard e François Truffaut. Tudo isso ajustado, enjambrado às imagens que Burlan filmou. São Paulo como não estamos mais acostumados a ver (na tela). Diálogos fictícios (im)possíveis. E também dois amigos, dois jovens (belos), que justamente num ensaio à maneira da nouvelle vague, deambulam (pelo Centro, claro), tecendo regras sobre a chatice que o cinema está virando, tão sério. Essas cenas pertencem a um velho filme de Rogério Sganzerla – velho não é o termo. O cinema de Sganzerla nunca é velho. O de Cristiano Burlan é sempre novo, à frente. A tristeza de um mundo em ruínas, mas no cinema dele a morte – do irmão, da mãe, do amigo, do cinema – nunca é o fim, mas o antes. Um início, ou reinício. Uma batucada substitui o butoh, mas permanece o convite à dança, à vida. A icônica – ela não deve gostar de ser chamada assim – Helena Ignez disserta sobre uma variação do hinduísmo, que virou movimento de afirmação (sempre!) das mulheres. Na linha da mão de André Gatti, identifica o amor. Pelas mulheres ou pelo cinema? Ensaio Sobre Um Fracasso ironiza o próprio título. O filme é tudo, menos um fracasso, como A Doce Vida, o clássico de Federico Fellini que motiva uma (auto)reflexão de Bernardet, é tudo menos um filme sobre a delícia (talvez, muito mais, sobre a angústia) de tentar viver plenamente em Roma e descobrir só o vazio. Saí do CineSesc já querendo rever o filme do Burlan. Esta noite tem mais Latino, A Mulher da Luz Própria, de Sinai Sganzerla. As luzes acenderam-se, estava atordoado pelo filme. Alguém me cumprimentou, não sabia se falava ou conferia os créditos, em busca de mais informação. Ele, era um homem, achou que não o estava reconhecendo e partiu. Sabia, sim, quem era. O cientista político José Álvaro Moisés, homem da cultura, do cinema, de Fernando Henrique.