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Ennio Morricone, a inspiração não existe

Luiz Carlos Merten

06 de julho de 2020 | 19h45

Numa viagem à Itália, acho que no lançamento do Calendário Pirelli de 2019, meu editor, Ubiratan Brasil, me havia trazido um volume da HarperCollins Milano, lançado em outubro de 2018. Ennio Un Maestro – Conversazione. As conversas de Giuseppe Tornatore com o grande Ennio começam por um capítulo sugestivamente chamado A inspiração não existe. ‘Música não é magias, é lógica.’ Morricone fala de suas influências – Bach e Stravinski -, de suas parcerias. Começou fazendo arranjos na RAI, ligando-se a grandes nomes da música italiana. Fez os arranjos para sucessos como A-A-Abronzatissima, C’Era Un Ragazzo (che come me amava I Beatles e i Rolling Stones). Conta uma história deliciosa – a dos arranjos de um disco italiano de Chico Buarque que não fez nenhum sucesso, e ele diz. ‘Chico nemeno riusciva a cantare quello che aveva scritto.’ Diretor musical do Centro de Produções da RAI, o maestro Alberto Pizzini foi duro com Morricone – “A sua música não pode ser seguida. O senhor não fará carreira.” Mas ele fez, a extraordinária carreira que todo mundo sabe, e reconhece. Nunca fiz a matéria prometida sobre o livro. Não imaginava que nesta segunda, 6, terminaria usando trechos de Conversazione para o obituário que escrevi para o Estado. Ennio Morricone morreu em Roma, cidade onde nasceu, aos 91 anos. Além da parceria com Sergio Leonre, compôs para filmes de Tornatore, a quem chama de Pepuccio no livro, Brian De Palma, Dario Argento, Gillo Pontecorvo, Giuliano Montaldo, Quentin Tarantino, Terrence Malick e um grande etc. Compôs para Pier-Paolo Pasolini, e conta que começaram de forma um tanto enviesada, porque Pasolini lhe deu uma seleção de músicas que queria colocar em Gaviões e Passarinhos. Ennio observou que era um compositor, não um compilador de músicas dos outros. O que recebeu em troca foi um voto de confiança – ‘Va bene, allora faccia come vuole lei.’ Acrescenta que, uma noite, saindo para jantar com Pasolini, falou-lhe do seu sonho, um filme sobre a morte da música. Pasolini pediu licença, disse que já voltava. Chamou Federico Fellini, que se juntou ao grupo. Fellini ouviu, disse que faria o filme. Não fez, mas Morricone reencontrou sua história em Ensaio de Orquestra, um Fellini de 1979, sua última parceria com Nino Rota. Morricone tem um filho compositor, Andrea, que faz música para cinema e criou, para Montaldo, a triolha de L’Industriale, uma partitura que encantou seu pai. Morricone considerava as cordas a mãe da orquestra, mas é impossível pensar nas suas composições sem os sopros. Fiquei hoje o dia inteiro escrevendo. Tinha muitas matérias para a edição, o Terçou, uma entrevista com Matheus Nachtergaele (sobre Cine Holliúdy, a Série, que volta amanhã na Globo), os filmes na TV. Mas o tempo todo ficava ouvindo as trilhas do Morricone na cabeça. The Ecstasy of Gold, L’Estasi dell’ Oro. Tenho de agradecer a Lia Vissotto, que me proporcionou aquele momento único. Uma entrevista com Ennio na escadaria interna do Teatro Municipal, do Rio, quando ele veio reger Ennio in Concert. Como profissional, não posso me queixar. Sigo tendo grandes encontros, com grandes artistas. Só espero continuar sendo digno desse privilégio. Para encerrar com o livro, a última frase. Um desiderio – “Seguir em frente, sempre, fazendo o possível e até o impossível. A vontade de ousar não deve morrer nunca.’