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Em memória de Eleanor

Luiz Carlos Merten

10 de dezembro de 2013 | 19h37

Passei todos esses dias em Nova York sem dar notícia porque estava vendo filmes (e peças), fazendo entrevistas, mas a grande dificildade é que estava no Soho, num daqueles hoteis butiques que presumem que todo mundo ande com seu I-Phone, iPad e o escambau, o que significa que, embora chiquérrimo,  não tem business center. Suei para conseguir enviar os destaques de TV. Achei que, na volta, poderia falar da junket de American Hustle, que aqui vai se chamar Trapaça, ou então de Philomena, Out of the Furnace e Mandela, mas tudo isso vai ter de esperar. Fui atropelado pela notícia da morte de Eleanor Parker. Eleanor quem? Há tempos que ela parara com o cinema – morreu ontem, aos 91 anos, em consequência de uma pneumonia -, mas foi grande nos anos 40 a 60. Lembro-me de ter lido em algum lugar que era filha de um professor de matemática, que não a impediu e, pelo contrário, incentivou-a a se tornar atriz. Sua estreia no cinema foi num pequeno papel num dos filmes de minha vida – O Intrépido General Custer, de Raoul Walsh, com a dupla clássica Errol Flynn/Olivia de Havilland, em 1941. Ela atravessou os anos 1940 filmando muito. Era fina, sofisticada, mas então, em 1950, fez um filme emblemático – Caged, À Margem da Vida, de John Cromwell, pelo qual ganhou o prêmio de melhor atriz (a Taça Volpi) em Veneza. Eleanor fazia uma mulher presa por crime que não cometeu, mas virava uma criminosa durona pelas próprias condições da vida na cadeia. Ela continuou fazendo bons filmes de aventuras – Scaramouche, de George Sidney, e Selva Nua, de Byron Haskin, cujo ataque de formigas (marabunta) inspirou Steven Spielberg no quarto filme da série Indiana Jones. Mas os grandes papeis de Eleanor nos anos 1950 – e em toda a sua carreira – foram o da mulher do intransigente policial Kirk Douglas em Chaga de Fogo, de William Wyler (ela possui um segredo que vem à tona) e a sua incursão pelo universo dos viciados em heroína de O Homem do Braço de Ouro, de Otto Preminger, com Frank Sinatra e Kim Novak. E não estou me esquecendo de Melodia Interrompida, de Curtis Bernhardt, com Glenn Ford, um melodrama inspirada na trágica vida da soprano Marjorie Lawrence. Nos 60, Eleanor foi a baronesa de A Noviça Rebelde, de Robert Wise, que a dirigira em Três Segredos. Era um papel pequeno – o da presumível futura esposa do Capitão Trapp, que desiste dele ao perceber sua atração por ‘Maria’ (Julie Andrews). Depois disso, Eleanor Parker ainda fez alguns papeis, mas logo o cinema mudou e ela deve ter percebido que não havia mais espaço para sua persona. É curioso, mas pelo tipo físico – era classuda – pertencia a uma linhagem de atrizes que também incluía Joan Fontaine. É incrível, mas, de repente, a notícia de sua morte me devolveu filmes que estavam meio esquecidos no meu imaginário – o western A Fera de Forte Bravo, de John Sturges, com William Holden. Fiz um pouco essa viagem ao assistir, na Broadway, a The Winslow Boy. Amo o filme de David Mamet e sempre me impressionou que o diretor e dramaturgo, numa entrevista que fiz com ele, considerasse a peça de Terrence Rattigan a melhor da língua inglesa (e ele brincou comigo, pedindo perdão a ‘William’, Shakespeare claro). É, realmente, um belíssimo texto, com um elenco brilhante, mas qual não foi minha surpresa ao descobrir, como a matriarca, Mary Elizabeth Mastrantonio. Ela fez todos aqueles filmes importantes nos anos 1980 e 90 – Scarface (o de Brian De Palma), A Cor do Dinheiro (Martin Scorsese), O Segredo do Abismo (James Cameron) e Robin Hood (a versão de Kevin Reynolds, com Kevin Costner). Não sei em que momento parou, mas o cinema deixou de ser sua prioridade. Achei-a bem interessante. Presença, voz, tudo nos trinques. Adoro essas viagens. Seu par em Scarface era Steven Bauer. Ele era um assombro, parecia talhado para um grande futuro, mas o desenvolvimento da carreira foi decepcionante. As voltas que o mundo dá…

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