As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Em defesa do mercado de ‘autor’

Luiz Carlos Merten

25 de março de 2014 | 10h35

Por conta de uma edição magra e cheia de ganchos – matérias sobre eventos do dia – não havia conseguido emplacar no Caderno 2 de ontem nenhum texto sobre a abertura da Mostra de Tiradentes na cidade. Pela segunda vez, o Cinesesc sedia uma seleção do evento da cidade mineira. Na edição de hoje, consegui cravar um texto no Caderno 2, mas é muito pequeno, pouco mais que uma breve. Me deu um trabalho do cão. Queria criticar, mas escolhendo as palavras, porque amo o espírito de Tiradentes. Cinema autoral, de experimentação. Ao mesmo tempo, ao participar dos debates – como ouvinte, na maioria das vezes – me angustiava ver a mitificação de uma atitude que me parecia suicida no seu radicalismo. (Acho que estou sendo redundante. Todo radicalismo é suicida, ou não?) Tenho medo de que meu texto seja entendido como um não ao radicalismo, ou um convite a que os jovens diretores aceitem as pressões e compromissos do mercado. O que não aguento mais é um certo tipo de discurso. Ao elogiar um belo documentário de Murilo Salles, manifestei minha sincera preocupação – que vida terá esse filme? Fiquei chocado quando o grande Murilo me disse que não importa que vida terá, ou se terá vida. O importante é ter sido feito, ter desencadeado aquele debate. Conversei com José Carlos Avellar, com Karin Ainouz. O problema é se criar o mito de que a Mostra Aurora, e só ela, é o cinema, porque existem ali, como em qualquer seleção, coisas boas e ruins. E Karin, que faz cinema de autor, e que ousa – o júri de m… que não premiou Praia do Futuro em Berlim, em fevereiro -, se preocupa tanto com o mercado que chega a fazer TV, claro que no formato dele. O mercado pode estar formatado para os blockbusters nacionais e estrangeiros – e tem gente fazendo cinema de autor, radicalizando a própria linguagem ali dentro, quando vão entender isso? -, mas ele é, no limite, um touro bravio que tem de ser domado. Me emocionei com certos depoimentos de veteranos em Tiradentes, mas havia amargura e ressentimento neles. Por outro lado, na Berlinale, poucos dias antes da morte de Alain Resnais, conversava com Sabine Azéma sobre a juventude e alegria de seu marido e ela definia Resnais como um magicien de l’espetacle. A morte colheu-o no trabalho. Resnais já preparava o próximo filme. Seu produtor dizia que era um prazer trabalhar com Resnais, o mais econômico dos diretores e cheio de ideias também em relação ao marketing dos filmes. Resnais, Woody Allen cavaram seus nichos, e não só eles. O cinema de autor, por mais radical que seja, pode não atingir números superlativos, mas produz seus sucessos. Estou torcendo para que Sílvia Cruz, da Vitrine, que tem lançado os filmes de Tiradentes, tenha com Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, o sucesso que não teve nem com O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Chega de 3 mil, de 5 mil, de 96 mil espectadores. Por que não sonhar grande? 300/500 mil? E porque não trabalharmos juntos para isso? Hoje Eu Quero vai abrir, no dia 2, o Festival de Melhores do Cinesesc e, na sequência, vai entrar em cartaz. Vou trombetear tudo o que puder para estimular as pessoas a verem o filme, e ele ganhou o prêmio da crítica na Berlinale. Crítica e mercado não são incompatíveis. Me encanta ver como Jean-Luc Godard – Godard! – em Les Années Cahiers, ao compilar suas listas de melhores do ano, coloca lado a lado westerns e filmes experimentais, e nivela um diretor comercial como Norbert Carbonnaux (que a maioria nem deve saber quem é) com Joseph L. Mankiewicz, Ingmar Bergman, Otto Preminger e Luchino Visconti. Carlão Reichenbach era outro que ia ao inferno para defender, como autores, diretores comerciais que não mereceriam duas linhas de apreciação da crítica ‘séria’. Apesar de o discurso estar se fechando muito sobre si mesmo, existem filmes de que gosto muito na Mostra Tiradentes em São Paulo. A Gente, de Aly Muritiba, A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa, que venceu a Aurora, e o Paixão e Virtude, de Ricardo Miranda, que, para mim, que conheço pouco o diretor, foi a maior surpresa deste ano. O filme passa no fim de semana, acho que no domingo. Não percam!

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.