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Em defesa da imaginação

Luiz Carlos Merten

23 Setembro 2013 | 09h36

Procurei na internet, mas acho que não usei as ferramentas corretas, porque não consegui localizar o texto do discurso de Cotrone no final de Os Gigantes da Montanha, em que ele debate, filosoficamente, sobre arte e vida, realidade e fantasia, mostrando como ambos se fundem  no nosso imaginário. Gosto muito dessa concepção de que a realidade pode ser uma projeção da nossa fantasia, da mesma forma que a paisagem não existe, mas é uma construção do nosso olhar. Tergiverso, mas fui ver ontem Cabaré Biblioteca Pascal, do húngaro Hajdu Szabolds, que passou no Fórum de Berlim, em 2010. Há três anos, Bal/Mel, do turco Semith Kapanoglu, ganhou o Urso de Ouro. Amei o filme, mas, às vezes, tenho a impressão de que fui o único. Acho que não ficou nem uma semana em cartaz, rejeitado pelo público e pela maioria da crítica, aqui em São Paulo. Em Berlim, quando dei minha interpretação do filme – o sonho do menino -, o próprio diretor me agradeceu e disse que tinha sido o único jornalista, em todas as entrevistas que deu, a ver o filme como ele o concebeu. Lembro-me que The Hollywood Repórter caiu matando na seleção da Berlinale de 2010, nem me lembro se resguardando O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, que ganhou o Urso de Prata de direção, ou se o incluindo no ‘lixo’. Hollywood Reporter foi particularmente dura com o filme húngaro. Disse que foi dos piores, o pior?, na seleção que já era ruim. Eu fui ver ontem, e fiquei chapado. Uma mãe se apresenta perante o serviço social para reclamar a guarda da filha. Conta uma história fantástica, incluindo o cabaré do título, em que prostitutas e prostitutos, incluindo crianças, atendem às fantasias dos clientes personificando personagens emblemáticos da literatura universal. O funcionário a adverte de que, se prosseguir com aquela loucura, perderá a guarda da menina e Mona, a protagonista, transforma a ‘fábula’ num, relato sucinto (e realista) de como ela foi seduzido e abandonada, e enviada a um bordel na Inglaterra etc. Os dois relatos antecipam o Ang Lee de A Vida de Pi, que foi superpremiado e nem é é tão bom, mas deixa pra lá. A questão, pirandelliana, é quando Mona está sendo verdadeira e o diretor usa seu relato para fazer uma metáfora da violação – o estupro – da imaginação pelas regras que regem o mundo, não apenas na economia, mas também no comportamento, na ‘fantasia’, na arte. Fiquei perturbado com a riqueza visual e a beleza de Orsolya Torok-Illyés e Andi Vasluiani, que formam o casal inicial, e ele transmite à filha de ambos a capacidade de projetar seus sonhos na mente das outras pessoas, libertando a imaginação de todos. Como o filme já tem três anos, não me lembro, sinceramente, se passou na Mostra, mas tem a cara daquilo que Leon Cakoff amava. Ele teria adorado, e espero que tenha visto. Briguei algumas vezes com Leon, mas, por diferentes vias, reconheço que era meu igual. Ele também não tinha preconceitos estéticos nem se prendia a um conceito de cinema. O cinema, como o mundo, só é único por ser múltiplo. E quem não reconhece isso só tem a perder. É o que nos diz Cotrone e, na encenação de Gabriel Villela com o Grupo Galpão, a trilha é invadida pela ‘marcha’ militar dos Gigantes, o som de botas batendo o solo, ritmadamente (existe a palavra?), com o último discurso de Benito Mussolini de fundo. O fascismo tem muitas caras. Totalitarismo, mesmo estético, não.