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Em busca da transcendência? (Sobre Alex e Sergio Blanco em Tráfico)

Luiz Carlos Merten

12 de abril de 2019 | 11h18

O crítico de cinema volta ao teatro. Estava emendando mostras e festivais. Desde que voltei de Berlim a programação anda intensa. Houve a MIT, e vi algumas coisas. Seguiram-se a Mostra Tiradentes em São Paulo, agora o É Tudo Verdade, a Mostra Melhores Filmes do Cinesesc, uma enxurrada de estreias toda semana. Anda difícil encaixar o teatro, mas assisti ontem à noite a Tráfico, no Sesc Vila Mariana e comprei ingresso para Tom na Fazenda no Sesc Santo Amaro, no domingo. Ontem, ao entrarmos no teatro – não a sala grande do SVM – o ator (colombiano) Wilderman García Buitrago já estava se aquecendo, dançando. Antes de iniciar seu monólogo, ele disse que não falava português, mas que nós, o público, iríamos entendê-lo. A peça começou com legendas eletrônicas, que depois desapareceram. Achei que fazia parte do show. O ouvido já se acostumara, etc e tal. No final, veio o agente do Sesc desculpar-se com a gente, pela falha na legendagem. Orlando Margarido, que lá estava, queixou-se de que perdera muita coisa. É pena, porque o texto do dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco prossegue com questões que já estavam em A Ira de Narciso. As confissões de um garoto de programa. Alex fala da suas descoberta do corpo e da aptidão para o sexo, graças à ferramenta grande e grossa, como repete inúmeras vezes. Fala sobre a clientela, e como prefere atender homens a mulheres. Com os primeiros o papo é reto. Os caras olham o volume e pá-pum. As mulheres não olham. Com elas tem de ter carinho, conversa, o caminho é mais sinuoso e, por isso, o preço é mais caro. Essa é a primeira parte. Na dos, Alex/Wilderman faz o gesto com os dedos para designar o número, o cliente favorito – um francês – o induz a ingressar na organização e Alex, que já alugava o corpo, vira matador de aluguel. O percurso da alienação – matar por dinheiro. Como o sexo, o ato de matar empodera. A arma vira prolongamento do falus. Um, dois, três tiros. O francês deserta, Alex comete excessos e vira um incômodo para a organização. No palco em arena, só o ator e uma moto. O fetiche, a velocidade. Alex não é propriamente crucificado, mas tem 33 anos, habita a rua Jerusalém e se refere à mãe como uma santa. A vertigem – da música, do sexo e da velocidade. Matar e morrer. A solidão. O texto explora muito o exibicionismo de Alex, mas Wilderman e Blanco são bons e, em alguns momentos, vão na contracorrente das exigências dos clientes de Alex, que só querem saber de alegria, e passam – passaram para mim – uma genuína tristeza. A dor dilacerante de alguém que sabe que usa e está sendo usado. E a peça termina bem, abruptamente. É como se estivéssemos, como se eu estivesse, naquela moto, a 200 por hora. Alex me lembrou outro garoto de programa. Richard Gere em Gigolô Americano, de Paul Schrader, com a trilha de Giorgio Moroder. Schrader, em busca da transcendência, bebe na fonte de Robert Bresson. Blanco e Wilderman também estão atrás disso, ou é só o olhar de quem vê?

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